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Selic alta deve estender 'dores' do varejo no segundo semestre

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Selic alta deve estender 'dores' do varejo no segundo semestre

A atividade econômica sentirá os impactos das altas dos juros justamente neste semestre, que concentra as melhores datas para o varejo

Selic alta deve estender 'dores' do varejo no segundo semestre
maria-luiza

Atualizado há cerca de 2 meses

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São Paulo, 30 de junho – A manutenção da taxa básica de juros no patamar mais alto desde 2016 deve encarecer ainda mais o crédito e puxar para cima a inadimplência dos consumidores, derrubando as receitas e a lucratividade das grandes empresas do varejo discricionárias.

Os números não mentem — e as expectativas para o setor parecem pouco promissoras, disseram gestores e analistas consultados pela Mover.

O Índice Meu Crediário, pesquisa mensal que mede os níveis de inadimplência de até 90 dias em cerca de 200 redes varejistas do país, mostra alta de 4,81% na inadimplência do crediário no varejo de moda em maio. Mais de 10% das parcelas do crediário estavam atrasadas naquele mês, ante 9,59% em abril.

A elevação no índice, ao qual a Mover teve acesso, pode ser explicada pela inflação — que neste ano roda no maior patamar em mais de cinco anos, — nos juros mais altos e na participação de mais clientes novos na carteira dos lojistas, que costumam adicionar inadimplência aos balanços financeiros das empresas.

Com a elevação da taxa básica Selic em meio ponto percentual em junho, o Banco Central trouxe a previsão de mais duas altas de igual ou menor magnitude em reuniões futuras. A atividade econômica sentirá os impactos dessas altas justamente neste semestre, que concentra tradicionalmente as melhores datas para o varejo: o Dia dos Pais, Dia das Crianças, o Black Friday e o Natal.

As vendas do varejo, em especial as parceladas, serão vítimas dos juros em alta, uma vez que provocam encarecimento no acesso ao crédito. Isso pode ser percebido pela menor disponibilidade de parcelas para uma compra, explica Waldir Morgado, sócio da Nexgen Capital.

A mesma situação impactou o período julho-dezembro do ano passado, sobretudo no e-commerce, disse ele. “Esperava-se uma Black Friday com aumento relevante nas vendas e isso não ocorreu”, completa Morgado.

Isso deve aprofundar a crise de alguns papéis do setor, que acumulam quedas de quase 70% neste ano, por conta do poder disruptor do coquetel letal de juros e inflação em forte ritmo de alta.

O índice de empresas de consumo da B3, conhecido como ICON, fechou o primeiro semestre em queda de 24,82%.

Determinante

A ação da Magazine Luiza (MGLU3) desabou 89,20% do seu valor nos últimos 12 meses, enquanto o papel da rival Via (VIIA3) perdeu 88,01%. Já a ação da Lojas Renner (LREN3) cedeu 42,86% e a da C&A (CEAB3), 83,97%.

É por isso que a inadimplência no crediário das empresas do varejo, sobretudo de consumo discricionário, deverá ser determinante nas temporadas de resultados do terceiro e quarto trimestres, disse Iago Souza, analista da Genial Investimentos.

“Já vimos crescimento relevante desse indicador no primeiro trimestre, que acompanhou o aumento das carteiras de crédito das empresas, e para o resto do ano eles se tornarão ainda mais relevantes”, afirmou Souza, ressaltando que a inadimplência sinaliza um comprometimento de receitas futuras da empresa.

No balanço do primeiro trimestre, a Magazine Luiza viu um aumento de 1,1 ponto percentual na inadimplência da sua carteira total de crédito na base anual, a 3%. A Via reportou perdas sobre a carteira de 3,6%, leitura cerca de 1,2 ponto percentual acima do patamar de um ano antes.

Renner, a líder nacional do varejo de moda, viu a inadimplência da sua carteira total de crédito dobrar para 3,4%.

A inadimplência deve piorar a situação das margens de lucro no setor, diante das pressões de custo pela maior inflação, do peso resultante dos gargalos nas cadeias globais de produção e da disparada nos combustíveis — que encareceu a logística.

A temporada de balanços do varejo deve começar no final deste mês e se estender até meados de agosto.

Copa atípica

Souza lembra que a Copa do Mundo, evento que aquece as vendas de smartphones e televisões, ocorrerá no quarto trimestre pela primeira vez em décadas, somando-se à Black Friday e o Natal.

“Será uma prova de fogo para as empresas em termos de estoque, logística e concessão de crédito, visando aumentar o volume de vendas. Só isso já aponta para um aumento da carteira de crédito”, disse o analista.

O Banco Central do Brasil aumenta a taxa básica de juros com o intuito de frear a alta de preços no país – o que poderia de alguma forma compensar o encarecimento do custo de crédito e estimular o consumo. Mas a elevação na Selic leva de dois a três trimestres para diminuir os preços na economia.

Já a elevação nas demais taxas de juros do país – e no custo do crediário – “se dá de maneira bem mais ágil”, disse Victória Minatto, analista da Benndorf Research.

Um gatilho positivo e com efeitos mais rápidos para os preços foi a aprovação e posterior sanção pelo presidente Jair Bolsonaro do Projeto de Lei Complementar 18, que limitou as alíquotas de ICMS estaduais para combustíveis, energia, transporte coletivo e comunicações.

De acordo com um levantamento feito pela ValeCard, empresa de gestão de frotas, mesmo tendo efeito apenas durante os quatro últimos dias do mês, a medida foi responsável por gerar uma queda nos preços da gasolina de aproximadamente 1,61% neste período, resultando em um valor médio mensal estável.

Ainda assim, Souza alerta para a exposição do balizador do varejo, que é a inflação, a eventos macroeconômicos exógenos.

“Um suposto agravamento no conflito na Ucrânia ou alguma alteração na produção mensal de petróleo dos países produtores podem inflar ainda mais os preços não só no Brasil, mas também no mundo”, completa.

Texto: Maria Luiza Dourado
Edição: Guillermo Parra-Bernal
Imagem: Vinicius Martins / Mover
Comentários: [email protected]

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