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Nubank chega à Bolsa com desafio de rentabilizar operação e driblar desconfianças

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Nubank chega à Bolsa com desafio de rentabilizar operação e driblar desconfianças

A oferta pública inicial de ações do Nubank deve ser precificada nesta quarta-feira, e a estreia deve ocorrer no dia seguinte

Nubank chega à Bolsa com desafio de rentabilizar operação e driblar desconfianças
giovanni-porfirio

Atualizado há 8 meses

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São Paulo, 7 de dezembro –  Maior banco digital da América Latina e um dos maiores do mundo, o Nubank chega à Bolsa de Nova York com planos ousados de expansão, mas ainda precisando mostrar ao mercado como tornar sua operação rentável e driblar os desafios próprios de uma empresa de crescimento, como o movimento de alta de juros no Brasil e nos Estados Unidos.

A oferta pública inicial, IPO na sigla em inglês, de ações do Nubank deve ser precificada nesta quarta-feira, 8. A companhia, fundada em 2013 por David Vélez, Cristina Junqueira e Edward Wible, estreia suas ações na NYSE na quinta-feira, junto dos recibos de ações, ou BDRs, na B3.

Com o objetivo de se tornar a maior fintech do mundo, o “roxinho”, como é popularmente conhecido, quer ir além da América Latina com o movimento, aumentando sua fatia no total de lucros bancários da região.

Depois de planejar chegar à Bolsa com valor de mercado de US$50 bilhões e levantar mais de US$3 bilhões, o Nubank teve de alinhar expectativas em meio ao momento de fraqueza das fintechs de capital aberto, com o movimento de alta de juros no Brasil e a perspectiva de aperto monetário nos EUA a partir do ano que vem.

A companhia reduziu a faixa indicativa inicial do IPO em 20%, de US$10 a US$11 por ação para US$8 a US$9, podendo levantar até US$2,6 bilhões considerando o topo da faixa com a oferta de 289,2 milhões de papéis, o que daria à fintech uma avaliação de mercado de cerca de US$41 bilhões.

Danielle Lopes, sócia da Nord Research, acredita em um IPO mais “fraco” do que o esperado. Mesmo assim, segundo ela, o apetite por fintechs fortes não reduz, mas os investidores passarão a olhar para outros investimentos que não o Nubank.

“Eles já cortaram o preço e devem estar correndo atrás de investidor para poder pagar. É um preço mais alto para uma empresa que praticamente ainda não dá lucro”, diz.

Créditos e juros

Na semana passada, o banco realizou um evento virtual com investidores para comentar as expectativas para a abertura de capital. O evento foi tema de um relatório elaborado por Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Thiago Paura, analistas do BTG Pactual.

No documento, eles lembram a sinalização de que o crédito continuará sendo um meio muito importante de monetização da companhia. “É do nosso entendimento que o Nubank começa com limites de crédito muito baixos quando opera com novos clientes, especialmente se eles forem muito jovens ou de baixa renda”, escreveram.

Segundo prospecto, a maior parte da carteira de crédito pessoal do Nubank é “classificada como risco forte”, o que pode explicar os limites mais baixos de crédito.

A carteira total da companhia atingiu US$1,4 bilhão no final de setembro, o equivalente a 1,1% do saldo da indústria de cartões de crédito e empréstimos pessoais.

Para Rodrigo Lima, analista de investimentos e editor de conteúdo da corretora australiana Stake, o IPO do Nubank vai testar o apetite do mercado por teses de alto crescimento, sobretudo no momento em que essas teses estão sendo penalizadas globalmente devido às perspectivas inflacionárias e ao aperto monetário em países emergentes, que deve chegar aos EUA no ano que vem, conforme sinalização do Federal Reserve.

“Se esse cenário leva a cotações depreciadas em um primeiro momento, isso também pode se refletir em maior rentabilidade da companhia, mas é importante ter em mente que isso sempre pode acarretar em um aumento na inadimplência”, destaca Lima em entrevista à Mover.

Desafios

O Nubank encerrou o mês de setembro com um prejuízo acumulado de US$91 milhões no ano, mas apontou em seu prospecto que aumentou a base de clientes, superando os 48 milhões, e que elevou as receitas a “altas taxas de crescimento anual”. Sendo assim, Lima acredita que o principal desafio da companhia ainda seja rentabilizar a operação.

“O crescimento da operação de crédito será fundamental para isso, e o Nubank vem tendo desempenho sólido desde que entrou no mercado. Mas é importante que haja a sua expansão para que a companhia consiga atingir um eventual break even – equilíbrio – operacional”, afirma.

Danielle Lopes concorda com o analista, acrescentando que até o momento, o Nubank realizou uma captação orgânica muito satisfatória. “Agora, eles precisam achar formas de monetizar a base deles, para provar ao investidor que eles conseguem gerar lucro, por consequência gerar caixa e não ficar dependendo de investidor para conseguir crescer”, afirmou.

Investidores

Há a expectativa de que o megainvestidor Warren Buffett esteja entre os investidores-âncora do IPO. Em junho passado, o bilionário aportou US$500 milhões no Nubank por meio do seu conglomerado de investimentos Berkshire Hathaway.

Lima acredita que a atuação de Buffett pode ser positiva aos olhos do mercado, já que é conhecido por ser um investidor de companhias de qualidade, e que evita empresas sobrevalorizadas.

“Ele é inquestionavelmente uma das maiores personalidades do mercado financeiro mundial. Não à toa, já houve até mesmo equipes de RI de companhias de capital aberto que afirmaram que ele estaria nessas empresas, em uma tentativa fracassada de manipular os preços das ações”, lembra.

Lopes também acredita que a presença de Buffet traga mais credibilidade ao negócio, mas entende que esse movimento faz parte de um espectro maior.

“O investidor que conhece um pouco mais a estratégia do Buffet nem olha para isso, entende que é o grupo. A Berkshire vai deixar de ser dele, e eu imagino que as pessoas esperem um pouco mais para entender se ela vai continuar trazendo bons resultados como trouxe no passado”, aponta.

Perspectivas

O fator de branding, ou seja, de construção da marca, é um fator positivo para a tese do banco na visão de Rodrigo Lima. Além disso, segundo ele, a instituição está bem posicionada quando o assunto é experiência do cliente.

“Uma grande sacada do banco foi a campanha de transformar seus clientes em sócios e de distribuir um BDR gratuitamente para seus clientes ativos”, lembra.

O analista também espera que os usuários sejam estimulados a utilizar a plataforma de investimentos da instituição, o Nu Invest, fidelizando este público que em grande parte, terá sua primeira experiência com o mercado de renda variável.

“O Nubank também parece estar muito mais focado em seus objetivos do que alguns de seus competidores, como o Inter. Até hoje não houve planos para criar um super app ou nada que desviasse do seu negócio principal, que são serviços financeiros. Isso pode ser uma vantagem em um mercado cada vez mais competitivo”, afirma.

Segundo estimativas do banco que constam em prospecto, a receita média mensal por cliente de varejo ativo dos gigantes do setor no Brasil foi 10 vezes maior que a do Nubank nos primeiros seis meses de 2021.

Para Danielle Lopes, mesmo a empresa tendo investido fortemente em tecnologia na comparação com os grandes bancos, esse dado ainda inspira alerta.

“Com relação à produtividade em escala, eles são ótimos, o atendimento é muito bem feito, a captação orgânica deve continuar muito boa, mas eles precisam começar a monetizar”, reforça. “Esse vai ser o segredo deles daqui para a frente”, finaliza a analista.

Texto: Giovanni Porfírio
Edição: Gustavo Boldrini e Renato Carvalho
Imagem: Vinícius Martins / Mover

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