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Fraco apetite por títulos longos pode reduzir prazo médio da dívida pública

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Fraco apetite por títulos longos pode reduzir prazo médio da dívida pública

Com a sinalização de que os juros básicos serão mantidos altos até pelo menos 2023, o apelo por títulos mais longos decresceu

Fraco apetite por títulos longos pode reduzir prazo médio da dívida pública
tcuser

Atualizado há cerca de 2 meses

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São Paulo, 24 de junho – O Tesouro Nacional precisa ficar de olho nas ondas globais de volatilidade e aversão ao risco das últimas semanas, se quiser evitar passar sufoco com o refinanciamento da dívida pública. Desde março, o investidor vem se afastando da ponta longa da curva de juros e reduzindo o volume de compra de títulos públicos federais com vencimentos de longo prazo.

O primeiro efeito disso pode ser uma redução no prazo médio da dívida pública, disseram especialistas ao Scoop by Mover.

O leilão de títulos públicos é a principal fonte de emissão de dívida brasileira. Com a sinalização de que os juros serão mantidos altos até pelo menos 2023, o apelo por títulos mais longos decresceu. As compras, por ora, estão cada vez mais concentradas em títulos mais curtos.

O risco eleitoral é um agravante para que investidores fiquem mais cautelosos.

“Para alongar a posição, precisamos de maior previsibilidade com relação a contas públicas e ao movimento inflacionário”, disse Aquiles Mosca, diretor na BNP Paribas Asset Management. “Nossa forma de defesa é manter posições de renda fixa mais curtas, a maior parte em 2023 e 2026”.

Embora isso não crie maiores problemas em um primeiro momento, pode dar início a uma piora do perfil de endividamento de longo prazo.

“Pode ser um problema também se houver redução grande na demanda por títulos mais curtos”, disse o coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV/SP, William Eid.

Para o diretor da Safari Capital, Elsom Yassuda, mesmo diante dessa percepção dos investidores, alguma dificuldade de rolagem da dívida seria agravada em um cenário global mais problemático, com a precificação de uma recessão ocorrendo muito cedo, com a inflação e com o temor de que a corrida eleitoral no Brasil pode agravar o problema fiscal.

Não assusta

“Isso tudo junto a um aperto nas NTN-Bs poderia causar um problema maior”, disse.

O atual movimento relacionado aos títulos mais longos, porém, ainda não assusta: o Tesouro Nacional tem um colchão de liquidez de mais de R$1 trilhão, o que dá margem para fazer frente a nove meses de resgates de títulos sem nenhuma rolagem.

“O Tesouro costuma se preparar para anos eleitorais, que são períodos de muita volatilidade. Por isso, reforçou o caixa da dívida nos últimos anos, ainda mais depois de todas as dificuldades de 2020”, disse o superintendente da ASA Investments, Jeferson Bittencourt.

Segundo ele, tirar o pé das emissões em um momento mais estressado também não compromete a estratégia de financiamento do governo. Para Bittencourt, o colchão de liquidez robusto que o Tesouro tem “permite administrar melhor os volumes colocados nos leilões”.

Na terça-feira, o leilão das notas do Tesouro Nacional série B indexadas à inflação, conhecidas como NTN-Bs, com vencimento em maio de 2035, teve como resultado a venda de 62.750 dos 150 mil títulos colocados à venda. Já entre os 150 mil títulos com vencimento em agosto de 2060 ofertados pelo Tesouro, 69.950 foram vendidos. A totalidade de 1,5 milhão NTN-Bs com vencimento em maio de 2027 foi vendida.

Já as 450 mil Notas do Tesouro Nacional série F ofertadas no leilão de quinta-feira foram vendidas integralmente, com vencimentos para 2029 e 2033. Há semanas o Tesouro não conseguia emitir títulos com vencimento para janeiro de 2029, que estão com taxas acima de 12,5%.

As NTN-F são títulos pré-fixados com pagamento de juros semestrais.

Procurada, a Secretaria do Tesouro Nacional disse que não comenta resultados de leilões específicos.

Baixo apetite pode ser passageiro

Além de gestores de fundos, os próprios investidores institucionais, como fundos de pensão, que desde o final do ano passado concentraram grande parte de seus investimentos em NTN-B por conta das taxas acima das suas metas atuariais, também desaceleraram a compra de títulos mais longos.

“Chega um momento que não há liquidez suficiente para comprar NTN-B e segurar até o vencimento, pois a fundação precisa de caixa”, explicou o sócio-diretor da Aditus Consultoria, Guilherme Benites, que faz análise de risco para 120 fundações com patrimônio consolidado de R$300 bilhões.

Mesmo que haja espaço na carteira para realizar novas compras, Benites tem a percepção de que as fundações estão esperando uma oportunidade melhor.

Essa também é a visão de outra fonte que possui experiência na gestão de investimentos de fundos de pensão e que pediu anonimato. “Os fundos de pensão queimaram a largada, começaram a comprar cedo e as taxas abriram, teria sido melhor esperar”, disse.

Ainda assim, ele atribui a queda no volume dos leilões a uma conjuntura incerta. “O caixa dos fundos de pensão já foi investido e os fluxos casados. Isso pode ter promovido uma redução marginal no volume de compra, mas em uma conjuntura melhor, terá nova demanda”, avaliou.

Texto: Bruna Chieco e Bruna Narcizo
Colaboração: Felipe Corleta e Simone Kafruni
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Allan Ravagnani
Imagem: Vinicius Martins / Mover
Comentários: [email protected]

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