0

Estatais brilham à espera da eleição mais polarizada em décadas

mercados

Estatais brilham à espera da eleição mais polarizada em décadas

As estatais Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras finalizaram o primeiro trimestre com saltos expressivos no lucro, atingindo recordes

Estatais brilham à espera da eleição mais polarizada em décadas
gustavo-cunha-boldrini

Atualizado há cerca de 1 mês

Ícone de compartilhamento

São Paulo, 18 de maio – Cinco anos após o início de uma profunda reestruturação e limpeza de balanços, as estatais brasileiras listadas foram o destaque da temporada de balanços do primeiro trimestre, reportando resultados recordes às vésperas de uma eleição que promete ser a mais polarizada desde a redemocratização.

Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras finalizaram os primeiros três meses deste ano com saltos expressivos no lucro, atingindo recordes para o período e superando os consensos colhidos pela Mover junto a analistas.

A petroleira reportou lucro líquido de R$44,6 bilhões, o maior da história no Brasil para um primeiro trimestre, segundo a TC Economatica. A Eletrobras viu seu lucro atingir R$2,72 bilhões, maior patamar para o período desde o início da série histórica, em 2007, enquanto o Banco do Brasil lucrou R$6,66 bilhões de janeiro a março, renovando recorde pelo quinto trimestre consecutivo.

Tudo isso a cinco meses de uma eleição que deve colocar frente a frente dois projetos antagônicos em relação ao papel das estatais: de um lado, o presidente Jair Bolsonaro e seu viés mais privatizador; de outro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não quer que o Estado se desfaça das empresas públicas – que ele vê como geradoras de empregos e de investimentos estratégicos.

A disputa pela presidência nos três maiores colégios eleitorais, com 40% do total de eleitores, mostra Lula em vantagem em dois deles, um empate numérico no terceiro e Bolsonaro em franca recuperação, de acordo com sondagens do Instituto Quaest, a pedido da Genial Investimentos.

Pesquisa da PoderData de duas semanas atrás mostrou que 33% dos eleitores concordariam em privatizar a Petrobras, ante 50% que se posicionaram contra. A mesma instituição mostrou no final de março que 56% se opunham à venda do controle da Eletrobras para grupos privados – como o governo pretende fazer no final do segundo trimestre ou início do terceiro.

Temer

O embate ideológico a respeito das desestatizações atinge principalmente Petrobras e Eletrobras. Na primeira, a paridade internacional de preços implementada no governo do ex-presidente Michel Temer impediu que a estatal fosse usada para subsidiar os combustíveis – protegendo o caixa gerado pela exploração e venda de petróleo.

A título de comparação, há seis anos, antes da adoção da paridade de preços, a Petrobras terminava março de 2016 com prejuízo na casa de R$1,25 bilhão, uma dívida líquida de US$103,8 bilhões – a maior entre as maiores petroleiras mundiais listadas na época – e uma alavancagem de mais de 5 vezes o lucro operacional anual.

Na ocasião, a companhia iniciava o ano-chave do início da nova política de preços imersa em desconfianças e em escândalos de corrupção que se perpetuaram durante anos e vieram à tona com a deflagração da Operação Lava-Jato, em 2014, que trouxe à luz a corrupção enraizada na estatal por meio de pagamentos de propinas a diversos políticos e empresários.

Além disso, a política de preços adotada pelas administrações de Lula e de Dilma Rousseff, que praticamente congelaram os preços dos combustíveis, levou a área de abastecimento da estatal a perder cerca de R$100 bilhões, segundo denunciou o então conselheiro da Petrobras, Mauro Rodrigues da Cunha, em depoimento ao Congresso em 2015.

Hoje, a política de paridade internacional de preços vem sendo criticada tanto por Lula quanto por Bolsonaro, que demitiu dois presidentes da Petrobras nos últimos dois anos. Lula também ataca os desinvestimentos da estatal em outros ativos, como refinarias, que ele cita como uma das causas da alta na gasolina e no diesel.

Ruído vs. discurso

“Temos que separar o que é ruído e discurso para o eleitorado do que realmente é fato. A Petrobras tem o cenário macro totalmente a favor dela, continua focando no seu negócio-chave, gerando caixa e reduzindo custos”, disse Matheus Jaconeli, economista-chefe da Nova Futura Investimentos.

As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) acumulam alta de 31% desde o início do ano, e voltaram a renovar recorde intradiário histórico no pregão desta terça-feira, a R$35,14.

Na Eletrobras, as ingerências estatais trouxeram risco de insolvência após a edição da Medida Provisória 579, em 2012, que tratava da renovação das concessões das hidrelétricas.

No balanço da estatal, a MP editada pela então presidente Dilma resultou em prejuízo líquido contábil de R$10,5 bilhões no quarto trimestre daquele ano. Para o setor elétrico como um todo, a Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel, estimou perdas na casa dos R$200 bilhões.

‘Crime de lesa-pátria’

Hoje, Lula e seus aliados petistas classificam o processo de privatização da companhia como um “crime de lesa-pátria”, enquanto a matéria será discutida hoje no Tribunal de Contas da União – à espera de um desfecho.

Por isso, apesar do crescimento anualizado de quase 70% no lucro líquido reportado pela empresa no primeiro trimestre, analistas ainda enxergam a situação com cautela, tanto pelo operacional quanto por uma provável guinada estatizante com uma eventual eleição de Lula.

“Seguimos enxergando uma companhia que visa se adequar a uma lógica mercadológica mais rentável, mas que também esbarra em questões recorrentes do passado, como os seus provisionamentos e as frustrações de investimento”, diz a equipe de analistas da Ativa Investimentos em relatório.

A ação ordinária da Eletrobras (ELET3) também acumula alta de 31% desde o início do ano.

Gestão de custos

O Banco do Brasil teve “o melhor resultado entre os grandes brancos brasileiros” na avaliação do trader e sócio da Armor Capital, Christian Lupinacci.

Há seis anos, o banco era pivô do processo que culminou no impeachment de Rousseff, acusada de atrasar o pagamento de R$13 bilhões de dívidas ao BB referentes ao Plano Safra, de incentivo à agricultura, durante 2015. Entre 2011 e 2015, no primeiro governo da petista, a dívida do Tesouro com o BB quase dobrou.

Analistas destacam uma limpeza no balanço do banco no decorrer dos últimos anos, que se reflete em avanços consistentes na margem financeira bruta e na carteira de crédito, mantendo um índice de inadimplência bem abaixo dos maiores rivais, a 1,89% da carteira total no final do trimestre, ante 2,6% de Itaú, 2,9% do Santander Brasil e 3,2% do Bradesco.

“O BB acabou não entrando na agenda de privatizações do atual governo por questões estratégicas, mas foram colocadas pessoas que vêm fazendo um bom trabalho na gestão do banco, principalmente nos custos”, diz Jaconeli, da Nova Futura.

O bom momento operacional levou a ação ordinária do BB (BBAS3) a subir 30% desde o início do ano, superando Itaú, Santander Brasil e Bradesco – que acumulam altas respectivas de 20%, 17% e 13%.

Texto: Gustavo Boldrini
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Allan Ravagnani
Imagem: Vinicius Martins / Mover

Nesta matéria

PETR4

PETROLEO BRASILEIRO S.A. ...

28,59

0,60

+2,14%

Relacionadas

BBAS3

BCO BRASIL S.A.

33,15

-0,23

-0,68%

ELET6

CENTRAIS ELET BRAS S.A. -...

46,50

-0,20

-0,42%

ELET3

CENTRAIS ELET BRAS S.A. -...

45,84

-0,35

-0,75%

PETR3

PETROLEO BRASILEIRO S.A. ...

31,11

0,57

+1,86%

Powered by

Análise de Investimentos

relatorios
image

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.