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Como os militares viram na guerra uma oportunidade para o agronegócio brasileiro

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Como os militares viram na guerra uma oportunidade para o agronegócio brasileiro

A visita de Bolsonaro à Rússia pouco antes da guerra na Ucrânia estourar ajudou a transformar o que poderia ser tragédia para o agronegócio

Como os militares viram na guerra uma oportunidade para o agronegócio brasileiro
tcuser

Atualizado há cerca de 1 mês

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São Paulo/Washington, 27 de maio – Às vésperas da invasão russa à Ucrânia, o presidente Jair Bolsonaro foi aconselhado por seus principais assessores militares a tomar uma delicada decisão diplomática: contrariar as maiores potências ocidentais e visitar o presidente russo, Vladimir Putin, em Moscou.

A paz de espírito tem um preço. Pelo menos foi o que disseram à Mover alguns ex-ministros da Defesa, assim como altos oficiais da ativa e da reserva que possuem trânsito no Palácio do Planalto, e que participaram das conversas que desencadearam nessa decisão.

Por já ser mundialmente visto como um pária ambiental, Bolsonaro pioraria sua imagem ao se posicionar de forma neutra ante a Rússia — vista como uma potência nuclear prestes a agredir uma nação democrática. No entanto, para os militares que aconselharam Bolsonaro a prosseguir com a visita, os benefícios para o país poderiam superar amplamente quaisquer riscos reputacionais e diplomáticos, disseram as fontes.

A visita, que começou em 16 de fevereiro e durou pouco mais de um dia, ajudou a transformar o que poderia ser uma tragédia para o agronegócio nacional em parcerias capazes de colocar o Brasil como o celeiro de alimentos mais confiável do mundo.

Bolsonaro queria garantir o fluxo de insumos, como fertilizantes e defensivos agrícolas, para que o agronegócio continuasse funcionando na medida do possível. O núcleo duro dos militares vê a Rússia como um país que apoiaria o Brasil caso houvesse um redesenho global das cadeias de suprimento — o que intensificaria o papel do país como megaprodutor de alimentos, disseram quatro das fontes.

Os resultados da tão criticada visita estão surtindo efeito — pelo menos por ora.

De acordo com uma fonte ligada ao Ministério da Agricultura, antes da visita de Bolsonaro à Rússia, o país possuía estoques de fertilizantes suficientes até outubro. Hoje, não há risco de falta de insumos para a safra finda em março próximo, afirma a mesma fonte.

A consultoria MacroSector estima que o Brasil terminará este ano com estoques de 7 milhões de toneladas de fertilizantes, apenas 4% abaixo do volume de dezembro. A Vittia Fertilizantes, por exemplo, disse a seus acionistas neste mês que, apesar dos preços mais altos, não sentiu até agora uma interrupção no fluxo de fertilizantes para o Brasil, com produtores se utilizando de estoques ou diversificando fornecedores.

Segundo um ex-ministro da Defesa que teve ciência direta dos temas tratados na viagem, “a ida de uma delegação militar e a reunião entre os ministros da Defesa e das Relações Exteriores brasileiros e russos são indicativos dos avanços desse alinhamento estratégico”. O ex-ministro pediu anonimato para falar livremente sobre o assunto.

A importância do encontro inédito entre os titulares das pastas de Defesa e Relações Exteriores russos e brasileiros era diretamente proporcional à dependência extrema do país de importados: segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos, cerca de 85% dos fertilizantes usados no Brasil vêm de fora.

Essa questão foi levantada publicamente pelo governo, na época, para justificar a visita a Putin. No caso da Rússia, um componente mais direto dessa dependência é o fornecimento para o agronegócio brasileiro de NPKs — sigla em inglês para nitratos, potássicos e fosfatados.

‘Solidário’

A viagem estava anunciada desde dezembro, quando uma guerrana Ucrânia era esperada. Com a piora das tensões no início de fevereiro, Bolsonaro foi aconselhado por seus auxiliares civis a cancelar a ida a Moscou, mas alguns dos militares que ele ouve “reforçaram sua posição”, disse uma das fontes.

A Rússia compra carne bovina, aves, soja, café e amendoim do Brasil — em uma quantia que representa pouco menos de 1% das exportações do país. Ambos os países são membros dos BRICS e estão juntos, porém temporariamente, no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

Na época, a visita foi chamada de “inoportuna”, “impensada” e “muito ruim” por ex-diplomatas, políticos da oposição e analistas no Brasil.

Logo ao se encontrar com Putin, Bolsonaro afirmou que o Brasil era “solidário à Rússia” e que os dois países tinham muito no que colaborar em defesa, agricultura e energia. Bolsonaro também disse pregar a paz e respeitar “quem age desta maneira”.

No mesmo dia, houve uma reunião com o presidente da Duma, a câmara baixa do Parlamento russo, e com empresários brasileiros e russos ligados aos setores de fertilizantes e energia.

De quebra, a aliança de ocasião garantiu também a rejeição russa ao discurso ambiental restritivo dos Estados Unidos e da França, disseram as fontes.

No governo, contam as fontes, impera a noção de que algumas nações ricas, sobretudo essas duas, possam voltar à carga com um discurso politicamente correto sobre depredação ambiental. O objetivo seria impedir que o Brasil se torne a maior potência alimentar global, mesmo se a guerra no Leste europeu se estender e colocar em risco a oferta global de grãos e proteínas.

Por trás dessas opiniões, é possível vislumbrar um governo que se posicionou diante do conflito na Ucrânia de forma estratégica, se valendo da geopolítica traçada nos gabinetes dos ministros militares.

Todas as fontes são categóricas ao afirmar que, caso o mundo passe por uma escassez alimentar inédita, o Brasil vai peitar esse discurso e usar mais do seu território para lavoura e criação de gado.

Sigilo

“Na Europa, mata ciliar é couve-flor e brócolis. Nenhum produtor rural dos Estados Unidos aceitaria usar apenas 20% do seu território para cultivos e deixar o resto preservado. Então, o justo seria replicar a legislação ambiental que o mundo impõe ao Brasil para todos os países”, disse à Mover o ex-ministro da Defesa, também um forte crítico do protecionismo comercial do mundo desenvolvido.

Os Ministérios da Defesa e de Relações Exteriores, cujas delegações comandaram essas conversas com seus pares russos, não comentaram as informações. O ministério de Relações Exteriores da Rússia tampouco respondeu ao pedido de comentário por parte da Mover.

A assessoria de imprensa do Palácio do Planalto não respondeu aos pedidos de comentário. O ex-ministro da Defesa, Walter Braga Netto, que chefiou a delegação que acompanhou a Bolsonaro, não pode ser localizado para comentar as informações.

Apesar de Bolsonaro apontar um motivo aparentemente comercial para a viagem, o Itamaraty colocou sob sigilo os relatórios relacionados à visita a Putin por cinco anos, até 21 de fevereiro de 2027.

Diálogo estratégico

Uma das fontes contou à Mover que, nas Forças Armadas, o diálogo com Rússia, China e Índia é absolutamente estratégico, independentemente do alinhamento ideológico que exista em alguns temas com os Estados Unidos ou com outros países ocidentais, por exemplo.

As próximas jogadas no tabuleiro de xadrez dos militares, que atuam coordenados com o Ministério da Agricultura, o Ministério das Relações Exteriores e até com o Ministério da Economia, visam conseguir novos mercados para o agronegócio brasileiros, disseram as fontes.

Muitas cadeias de suprimento sofreram interrupções após a guerra estourar na região do Mar Negro. Nações que estão impondo sanções para proteção da sua oferta doméstica de alimentos devem perder participação de mercado.

No final de abril, a Indonésia, maior produtor da commodity no mundo, anunciou a proibição da exportação de óleo de palma para evitar a disparada nos preços domésticos.

No começo de maio, a Índia proibiu a exportação de trigo, apenas uma semana após anunciar que a safra que acaba em março próximo deverá atingir recorde de produção de 100 milhões de toneladas.

Esses casos evidentemente são para cenários extremos, e essa especulação é prejudicial para o agronegócio até que haja uma definição sobre a safra do Hemisfério Norte, que deve ser finalizada até o início do próximo semestre e onde reside a maior preocupação.

Leilão

Os preços de commodities como trigo e milho são globais, mas o sobe e desce dos preços costumam ter efeitos desiguais, beneficiando os países mais ricos, que costumam ter espaço para absorver mais os aumentos de preço, enquanto os mais vulneráveis podem sofrer com a falta de comida mais barata.

Se o volume não for suficiente, os países ricos podem fazer um leilão com o preço de alguns insumos.

“Nós podemos observar o que aconteceu com as vacinas recentemente. Os países de maior poder aquisitivo correram, compraram as vacinas em quantidade suficiente para sua população, e quem não tinha dinheiro foi ficando para depois. Com os alimentos seria diferente? Certamente não”, explica Reginaldo Minaré, diretor-adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.

Dessa forma, novos fornecedores estão sendo procurados e há a percepção — tanto no governo quanto no setor privado- de que existe espaço para o milho, os óleos vegetais e outras commodities brasileiras ganharem mercado globalmente.

“Nossa lógica é aumentar a produção”, disse o diretor de Comercialização e Abastecimento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Silvio Farnese, que destacou o espaço que o Brasil tem a ganhar, por exemplo, nas vendas globais de óleos vegetais.

Raízen, Brasilagro

A Raízen, por exemplo, estima investimentos maiores para a safra 2022/2023. Contudo, não é a única.

A associação comercial controlada pela Cosan e a Shell afirmou no seu balanço do primeiro trimestre que “os investimentos recorrentes refletem, principalmente, o aumento da área de plantio, em linha com a jornada para o aumento de eficiência e a retomada da produtividade agrícola, bem como por maiores gastos com insumos agrícolas, aço, fertilizantes, diesel e mão de obra”.

A SLC Agrícola também compartilha a visão de aumento de exportações, apesar de pontuar que a guerra na Ucrânia pode acentuar o cenário de incerteza quanto ao fornecimento do milho e, como tal, gerar maiores volumes de vendas por parte de outros países.

A expectativa da BrasilAgro, por outro lado, é que o aumento dos preços dos insumos “deva ser compensado pela alta dos preços das commodities, capturando margens acima da média histórica”.

No entanto, sem maiores chances de desabastecimento de fertilizantes, sanções internas ou outros tipos de interferência governamental, o risco para a safra — e a liderança global na produção de alimentos — é financeiro.

Segundo Minaré, a CNA pediu que o governo disponibilize R$22 bilhões para o Plano Safra 2022/2023 para garantir financiamento a juros mais baixos a produtores rurais. O volume é 69% maior na comparação com os R$ 13 bilhões do plano em vigor neste ano.

Crise alimentar

A CNA justifica que o aumento é necessário por conta da alta da taxa básica de juros e do momento de insegurança alimentar mundial.

A confederação afirma ainda que a crise alimentar que se agrava mundialmente também terá impactos negativos, principalmente no que se refere aos custos.

Em uma situação na qual a produção brasileira ocorre de maneira satisfatória e se exporta bastante, o que mais impacta é o custo, principalmente de produção, por conta de defensivos, fertilizantes e frete mais caros.

A guerra elevou o preço do diesel — que impacta 40% do custo de operação de um navio, 35% de um caminhão e cerca de 5% da lavoura.

“O cenário é que teremos uma safra cara”, explica Minaré. “Serão necessários empréstimos mais altos para cobrir os custos diretos, mas os juros também estão mais altos”, advoga Minaré.

Outro desafio para transformar o Brasil no principal fornecedor de alimentos no mundo será geopolítico. Serão necessárias intensas negociações para fechar contratos que garantam ao Brasil essa pretendida escalada nas exportações agropecuárias.

“Claro que nesse momento de subida de preços, muitos países pensam nessas oportunidades para aumentar suas exportações, especialmente aqueles que têm custo de produção mais altos, como Estados Unidos, Canadá e Austrália”, disse à Mover o ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, José Graziano da Silva.

Graziano destaca a importância do diálogo com a China, que procura novos fornecedores para os alimentos que importava da Ucrânia e de outros lugares, incluindo soja, milho e arroz.

O Fórum Econômico Mundial, realizado nesta semana em Davos, na Suíça, e a próxima reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio, em junho, são grandes oportunidades para fazer negociações governo a governo, intermediadas pelo Itamaraty, para contratos de médio e longo prazo com a China e outros países.

As chances para vitória neste intrincado jogo geopolítico estão disponíveis — e o Brasil precisa estar preparado para aproveitá-las, como os militares ensinaram a Bolsonaro.

Texto: Bruna Narcizo e Leonardo Goy
Colaboração: Machado da Costa, Artur Horta e Gustavo Boldrini
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Gabriela Guedes
Imagem: Vinicius Martins / Mover

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