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Boi gordo deve ter virada de ciclo no Brasil e EUA em 2022, dizem analistas

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Boi gordo deve ter virada de ciclo no Brasil e EUA em 2022, dizem analistas

Os contratos futuros da arroba do boi gordo no Brasil acumulam alta de aproximadamente 55% nos últimos 24 meses, segundo dados da B3

Boi gordo deve ter virada de ciclo no Brasil e EUA em 2022, dizem analistas
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Atualizado há 8 meses

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São Paulo, 1 de dezembro –  Próximo das máximas, o boi gordo brasileiro deve iniciar um ciclo de baixa no segundo semestre de 2022, ao passo que nos Estados Unidos a situação é oposta e aponta para alta, o que impactará as principais linhas de custos de JBS, Marfrig e Minerva, segundo analistas ouvidos pela Mover.

Os contratos futuros da arroba do boi gordo no Brasil acumulam alta de aproximadamente 55% nos últimos 24 meses, atingindo R$331,50, segundo dados da B3. Para especialistas, a tendência é de queda ao longo do ano que vem.

Lygia Pimentel, presidente da casa de análises de investimento em ativos agropecuários Agrifatto, projeta uma virada de ciclo, em razão da maior liberação de vacas ao longo do próximo ano.

“Temos mais de 30 meses com retenção de fêmeas, isto é, quando produtores não vendem vacas para abate, destinando-as à produção de bezerros. Isso ocorreu devido à trajetória ascendente no preço dos bezerros no período”, avalia.

Ela projeta a queda de preço em termos reais a partir do segundo semestre do ano que vem, dando início a um período de baixa. “Quando o preço do bezerro não acompanha mais a inflação, sabemos que é virada. Se a produção de bezerros não compensar mais os custos, faz sentido o produtor liberar as fêmeas para abate, aumentando a oferta”, informa.

Para um alto executivo de um grande frigorífico brasileiro, há expectativa de recorde na disponibilidade de animais entre 2023 e 2024 no Brasil, o que beneficiaria empresas do setor, dado que estas possuem de 80% a 85% dos custos atrelados à compra dos animais para abate.

Para exemplificar, o abate total da Minerva saiu de 943,9 mil cabeças de gado no terceiro trimestre de 2019 para 950,3 mil no mesmo período de 2021, aumento de 0,67%. Mas o custo de mercadorias vendidas, CMV, saltou 66,33%, para R$6,11 bilhões, na mesma janela temporal.

Cabe ressaltar que as receitas da companhia também cresceram e que o CMV abarca todas as despesas para produção e armazenagem, não se limitando à compra de animais.

Especialistas ouvidos pela Mover também esperam que o consumo de carne no Brasil não cresça, apesar de melhores preços nas prateleiras para o consumidor final, favorecendo a tendência baixista do ciclo.

Segundo as fontes, o que impede a aceleração da demanda são as dificuldades macroeconômicas esperadas para 2022, o que levaria a população a buscar proteínas mais baratas.

Sem a pressão de demanda sobre a carne, a arroba tende a seguir a trajetória de baixa e, como os frigoríficos exportadores não dependem da demanda doméstica, suas vendas não serão prejudicadas.

“Devemos passar por dificuldades econômicas, em virtude do ano eleitoral, algo que tende a diminuir a busca da população por proteína bovina. Dessa forma, a dinâmica entre oferta e demanda do boi gordo torna-se ainda mais favorável para os frigoríficos exportadores, que terão queda nos custos”, afirmou o executivo do setor, que pediu anonimato para falar livremente sobre o assunto.

Estados Unidos

Por outro lado, a dinâmica nos Estados Unidos é oposta à vivenciada no Brasil, sendo esperada uma restrição na oferta de gado para os próximos meses e consequente queda de margens para aqueles que precisam comprar animais na América do Norte.

“Os frigoríficos passaram pelo melhor cenário possível no país”, disse o executivo, se referindo ao último ano, em que as plantas em solo americano viram os preços do boi gordo caírem, enquanto a demanda pela proteína mostrava forte aceleração.

A JBS, maior produtora de proteína do mundo, prevê oferta de gado entre 1% e 2% menor nos Estados Unidos em 2022, conforme sinalizado pela administração da empresa na última teleconferência de resultados.

Os melhores touros

Acionistas de JBS, Marfirg e Minerva foram premiados com recompras de ações e dividendos ao longo do ano. Levantamento da Mover com dados da Economática aponta que o lucro dessas empresas avançou 140,7% no terceiro trimestre e 451,37% no acumulado de 2021, quando comparado ao mesmo período do ano passado.

Para Adriano Castro, analista do setor de alimentos da Genial Investimentos, o resultado das companhias pode ser atribuído à exposição internacional, além do aquecimento das demandas asiática e americana pela carne de boi. Ele também corrobora com as projeções dos especialistas ouvidos pela Mover, relativas ao ciclo no Brasil e nos Estados Unidos.

“A Minerva é quem mais se beneficiará do cenário, uma vez que possui suas operações na América Latina e boa parte no Brasil. Podendo comprar gado mais barato e exportar a produção, a rentabilidade da companhia não deve ser comprometida”, avalia Castro.

Já para a Marfrig, a virada no ciclo não é boa notícia. A companhia possui 71% da receita líquida e 94,6% do Ebitda gerados na América do Norte, conforme o último balanço divulgado.

“Com o arrefecimento do ciclo norte-americano, a Marfrig, focada em carne bovina nos Estados Unidos tanto para produção quanto para vendas, deve ter uma desaceleração”, ressalta o analista.

Já para a gigante JBS será possível arrefecer o impacto do ciclo “pela diversificação geográfica, além do mix de produtos e proteínas”, disse Castro. A JBS é a segunda maior produtora de alimentos do mundo, com exposição às proteínas de boi, suínos, frango, peixe e plant-based na América do Sul, América do Norte, Europa e Oceania.

O analista prevê bons resultados para as exportadoras de proteína na bolsa em 2022, porém, com uma redução frente à base comparativa muito forte com 2021. “É difícil que um setor que entrega historicamente 10% a 12% de margem Ebitda continue reportando 14%,15% ou até 20% na perpetuidade, por isso pode haver alguma percepção negativa do mercado”, avalia.

Curto prazo

Os contratos futuros do boi gordo avançaram 19% em novembro. Rodrigo Brolo, Head de Agronegócios na Criteria Investimentos, entende que a arroba deve seguir elevada no curto prazo, em razão das restrições de exportação à China.

“Pecuaristas viram que estavam perdendo dinheiro ao liberar o gado sem a perspectiva de exportação até o final do ano, por isso, muitos não confinaram o rebanho. Sem o excedente, veremos uma escassez de boi pronto para abate e, consequentemente, arroba e carne mais caros”, avalia.

Autoridades chinesas anunciaram volta à normalidade do comércio de carne ao final de janeiro. “Por enquanto, o gigante asiático segue se abastecendo de proteína bovina norte-americana e de outros países da América Latina”, disse Brolo.

“Saem favorecidos JBS e Marfrig, que conseguem exportar dos Estados Unidos, inclusive com uma margem maior. Já aqui na América do Sul, a Minerva deve conseguir exportar de países como Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia, através da subsidiária Athena Foods”, ressaltou Brolo, citando que a atual restrição tem sido marginal para essas empresas.

Os papéis ordinários da Marfrig (MRFG3) e JBS (JBSS3) acumulam alta de 71,59% e 61,63%, respectivamente em 2021. Os papéis ordinários da Minerva (BEEF3) têm queda de 5,25% no período. Já o Ibovespa recua 12,61% na mesma base de comparação.

Texto: Artur Horta
Edição: Gustavo Bonato
Imagem: Vinicius Martins / Mover

Nesta matéria

MRFG3

MARFRIG GLOBAL FOODS S.A.

14,30

0,65

+4,76%

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JBSS3

JBS S.A.

30,42

-0,82

-2,62%

BEEF3

MINERVA S.A.

14,07

0,30

+2,17%

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