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Via: Mudança em remuneração gera revolta entre os vendedores da empresa

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Via: Mudança em remuneração gera revolta entre os vendedores da empresa

Além de juros e inflação, a Via convive com o fantasma das ações trabalhistas, que levaram ao aumento bilionário nas provisões da empresa

Via: Mudança em remuneração gera revolta entre os vendedores da empresa
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Atualizado há 3 meses

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São Paulo, 18 de março – Uma mudança na política de comissionamento tem causado revolta entre vendedores de lojas da Via, ameaçando reduzir a capacidade de vendas da varejista em meio à lucratividade em queda e a concorrência mais acirrada.

Quinze vendedores de lojas ouvidos pela Mover, em seis diferentes estados brasileiros, relataram insatisfação com a alteração no cálculo de remuneração e comissionamento das equipes de vendas, o que foi estopim para grande parte da categoria protestar abertamente contra a varejista.

Gerentes de lojas comunicaram às equipes uma mudança no regime de pagamentos no início de fevereiro. Relatos colhidos pela Mover apontam que a Via acertava as comissões de vendas do mês anterior no dia 2 de cada mês, enquanto o pagamento efetivo de prêmios, salário-base, adiantamentos, entre outros, ocorria todo dia 15. A mudança consistiu, inicialmente, na inversão de tais datas.

Além disso, os vendedores passaram a receber no começo do mês um salário-base com descontos de INSS e um percentual do vale-alimentação por exemplo, que resultava em ganho líquido em torno de R$1 mil para parte dos colaboradores ouvidos. “Já avisei meu gerente que vou procurar outro emprego”, disse um deles, sediado em Belo Horizonte e que pediu para não ser identificado.

Uma mudança na estratégia foi anunciada pela gestão da Via em sua última apresentação de resultados. A varejista não fez as habituais 1.200 contratações de fim de ano, por ter investido na integração de vendedores dos ambientes físico e online.

“Com capacitação e uso de tecnologia, o funcionário da Via está mais produtivo e vendedor online não fica apenas no remoto, sendo integrado à operação física”, disse o diretor-presidente Roberto Fulcherberguer. A controvérsia, no entanto, escancara uma dificuldade a ser enfrentada pela Via, que busca melhorar o desempenho do comércio físico, cuja receita bruta anual despencou 26,1% no quarto trimestre.

Além de juros e inflação, a Via convive com o fantasma das ações trabalhistas, que levaram ao aumento bilionário nas provisões da empresa para cobrir despesas deste tipo. Em 2021, essas provisões atingiram R$2,53 bilhões, alta de 53,2% na base anual.

O Sindicato dos Comerciários de São Paulo, um dos maiores da categoria no país, disse à Mover que recebeu reclamações envolvendo a remuneração de comissionistas da Via e que avalia possíveis medidas judiciais.

Ponta grossa

Nesse ambiente, novas ações movidas por funcionários insatisfeitos tornariam a ‘limpeza’ do balanço uma tarefa ainda mais complicada. Em nota, a Via informou que os colaboradores foram previamente comunicados da mudança no cronograma de pagamentos.

Com o novo fluxo, a Via equalizou o período de apuração das comissões e premiações. “Esta foi a única mudança ocorrida”, disse a empresa, que reforçou que não houve redução dos valores pagos, não acarretando qualquer prejuízo financeiro aos colaboradores.

“Como a mudança foi anunciada em fevereiro, recebemos pelos serviços prestados em período de transição”, informou um vendedor da Casas Bahia sediado em Ponta Grossa, no Paraná, que assumiu posição de liderança entre os colaboradores indignados na loja onde trabalha. “Diversas lojas não atingiram o mínimo de vendas para que prêmios e comissões fossem pagas, fazendo com que os vendedores recebessem apenas o salário-base no começo do mês”, completou.

Já um vendedor de uma loja das Casas Bahia de Ipatinga, Minas Gerais, afirma ter recebido R$925 em fevereiro por um trabalho que costumava gerar “um ganho de R$4.000 no final do mês”.

Outra reclamação dos funcionários ouvidos pela Mover é relativa ao descanso semanal remunerado, DSR, que não foi pago. Além disso, o sistema eletrônico que permite aos funcionários monitorarem seus ganhos também está fora do ar.

Os fortes descontos levaram inclusive alguns funcionários a protestarem nas redes sociais com a hashtag #vergonhadeservia, diante da percepção de que ficaram totalmente sem salário. A manifestação chegou a ficar entre os dez assuntos mais comentados do Twitter esta semana e tomou as redes sociais da empresa nos dias subsequentes.

Além disso, vendedores de todo o Brasil se uniram em grupos do Whatsapp e Telegram, buscando uma forma de organizar protestos mais contundentes. A Mover acessou um destes grupos com mais de 1.100 membros, cujo conteúdo das mensagens refletia indignações com o pagamento, políticas de premiação e administração da empresa, além das trocas de números de advogados trabalhistas e incitações a greves.

Pessimismo

Os últimos dois resultados divulgados pela Via corroboram com o pessimismo em relação à capacidade da companhia em manter crescimento e rentabilidade no atual cenário macroeconômico, disse o BB Investimentos em relatório publicado neste mês.

O BTG Pactual, também em relatório, destacou que “mesmo as varejistas mais bem capitalizadas não estão imunes ao aumento de custos”, prevendo um ano de margens pressionadas para as empresas do setor.

Especialmente para a Via, analistas do banco também estão preocupados com a desaceleração do e-commerce no Brasil e a competitividade da concorrência estrangeira.

As insatisfações dos funcionários apontam, ainda, para mais um desafio a ser superado pela companhia, segundo Matheus Jaconeli, analista de investimentos da Nova Futura. “É uma sinalização ruim para a governança e aspectos qualitativos de análise da Via”, avaliou.

Para Jaconeli, as questões ambientais, sociais e de governança, ESG na sigla em inglês, são fatores que afetam a análise qualitativa das empresas. “Companhias que não aderem a alguns desses requisitos podem ter uma percepção de custo de capital mais elevado, reduzindo a perspectiva de valor da empresa”, disse.

“Vale lembrar que no ESG, o ‘S’ está relacionado ao lado social, que também envolve o bem-estar dos colaboradores”, completou.

As ações ordinárias da Via (VIIA3) acumulam queda de mais de 70% nos últimos 12 meses, com o mercado precificando tanto fatores macroeconômicos, como a alta inflação e a corrosão da renda da população, quanto as dificuldades da companhia em rentabilizar sua operação e vencer a concorrência.

Texto: Artur Horta
Colaboração: Maria Luiza Dourado
Edição: Gustavo Boldrini e Gustavo Bonato
Imagem: Mover

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