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Credores dão voto de confiança e permitem que Tenda amplie endividamento

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Credores dão voto de confiança e permitem que Tenda amplie endividamento

Foram necessárias cinco Assembleias Gerais de Debenturistas para que fossem aprovados novos termos de endividamento da Tenda

Credores dão voto de confiança e permitem que Tenda amplie endividamento
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Atualizado há cerca de 1 mês

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São Paulo, 5 de julho – A Tenda e seus credores concluíram ontem negociações que autorizam um nível de endividamento acima das metas pré-acordadas entre as partes, dando um voto de confiança para que a incorporadora de baixa renda reduza a queima de caixa nos próximos anos, disseram fontes à Mover.

Foram necessárias cinco Assembleias Gerais de Debenturistas para que fossem aprovados novos termos de endividamento da Tenda. Segundo comunicado da empresa nessa segunda-feira, os credores aceitaram flexibilizar cláusulas que obrigariam a Tenda a quitar, de uma só vez, centenas de milhões de reais em obrigações vincendas em 2024 e 2028.

Impactada pela alta de preços de insumos e a escassez de materiais, a Tenda teve um incremento de R$532 milhões no custo das obras em 2021, levando a companhia a registrar prejuízo, margens negativas e maior endividamento.

Um dia após a divulgação do balanço do quarto trimestre do ano passado, em março, a ação ordinária da construtora (TEND3) chegou a desabar mais de 25%. Nos últimos 12 meses, o papel acumula queda de mais de 80%.

No primeiro trimestre, a dívida líquida terminou em 33% do patrimônio líquido, mais que o dobro dos 15% permitidos no acordo original que facilitou que a Tenda levantasse R$850 milhões em cinco emissões de debêntures desde 2018.

Esses termos, conhecidos comumente como covenants, levaram a incorporadora a propor uma negociação. Nas emissões originais, caso a alavancagem superasse 15% por dois trimestres consecutivos, a Tenda deveria quitar toda a dívida de uma só vez.

Foi então que a incorporadora pediu um alívio, ou “waiver”, para que pudesse manter o endividamento em níveis mais altos até equacionar sua situação. A proposta foi elaborada junto aos debenturistas e se tornou pública no início de junho.

“Desenhamos um acordo para que a companhia passe por esse momento de alavancagem maior e para que consiga, nos próximos dois anos, se livrar de lançamentos ruins que fez em 2021”, disse uma fonte diretamente envolvida na elaboração da proposta.

“Confiamos na administração para fazer lançamentos mais assertivos, que reduzam a queima de caixa e a alavancagem da Tenda, para que em 2025 ela retorne aos patamares históricos de endividamento”, disse. Alavancagem é uma métrica que relaciona a dívida de uma empresa com sua posição de caixa ou de capital.

A Tenda não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários.

Com o novo acordo, a Tenda poderá elevar a alavancagem medida pela dívida líquida sobre o patrimônio líquido até 85% até junho do ano que vem, posteriormente reduzindo-a a 30% até dezembro de 2024.

Em troca, a incorporadora pagará um prêmio de 1,75% ao ano na remuneração dos credores, além de incorporar garantias de até 30% do saldo devedor, tanto na forma recebíveis de clientes, quanto em participações em empreendimentos imobiliários. A Tenda também ficará impedida de pagar proventos aos acionistas até que a alavancagem volte a 15%.

Cenário deteriorado

A inflação da construção civil tem afetado todas as empresas do ramo, consequentemente, o desempenho do setor na bolsa. Nos últimos 12 meses, o índice imobiliário da B3 tomba 35,11%, enquanto o Ibovespa cai 22,73% e o Índice Nacional de Custo da Construção dispara 11,75%.

“A disparada de custos afeta adversamente as empresas que operam no programa Casa Verde e Amarela, já que o preço das residências tem um teto”, disse a equipe de renda fixa da XP Investimentos em relatório a debenturistas da Tenda.

Os segmentos de entrada do Casa Verde e Amarela, voltados para as classes mais baixas, têm sido os mais afetados pelo cenário inflacionário, e desde o ano passado o setor tem pressionado o governo federal para uma atualização nos subsídios do programa que o torne mais atrativo.

A Cury, rival da Tenda no segmento, tem ampliado sua exposição a faixas mais altas do Casa Verde e Amarela e à primeira faixa fora do programa, chamada de SBPE.

“Subsídio do programa precisa ser reajustado”, disse Ronaldo Cury, diretor de Relações com Investidores da construtora, em painel setorial promovido pelo TC Matrix recentemente.

Henrique Paim, diretor financeiro da Direcional, ressaltou que o orçamento do Casa Verde e Amarela não fere questões fiscais do governo por estar atrelado ao Fundo de Garantia de Tempo de Serviço.

Ano de prejuízo

O diretor-financeiro da Tenda, Marcos Pinheiro Filho, adiantou a uma coluna no jornal Estado de S. Paulo que “este será um ano de prejuízo”. Na coluna, publicada em 4 de junho, ele comentou sobre o acordo com credores e a expectativa de eliminar o risco de antecipação de pagamentos.

“Se voltar a errar nos lançamentos, dificilmente a companhia vai se recuperar”, disse a fonte que ajudou na construção do acordo.

A Tenda firmou o compromisso de reduzir as operações e preservar o fluxo de caixa. Para tanto, não poderá lançar mais de 15 mil unidades nos próximos 12 meses, 5,5 mil a menos do que o lançado em 2021. Também terá que cortar o quadro de funcionários, negociar pagamentos com fornecedores e elevar o preço de imóveis.

“O cenário não permite mais erros”, disse a fonte, afirmando que o racional dos credores, ao elaborar a proposta, é justamente impedir lançamentos rápidos e com métodos errados de precificação.

Texto: Artur Horta
Colaboração: Gustavo Boldrini
Edição: Guillermo Parra-Bernal
Imagem: Vinicius Martins / Mover
Comentários: [email protected]

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