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Com privatização da Eletrobras, chega ao fim seis décadas de controle estatal do setor energético

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Com privatização da Eletrobras, chega ao fim seis décadas de controle estatal do setor energético

A oferta de ações que sacramentou a desestatização da Eletrobras movimentou R$33,7 bilhões, com demanda superando 2 vezes o disponibilizado

Com privatização da Eletrobras, chega ao fim seis décadas de controle estatal do setor energético
tcuser

Atualizado há 15 dias

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São Paulo, 10 de junho – A Eletrobras, maior empresa do setor elétrico da América Latina, terá investidores privados no comando após seis décadas de controle estatal, em um processo que conseguiu superar os calendários apertados, os ataques da classe política e do funcionalismo público e meses de turbulência nos mercados globais.

A oferta de ações ordinárias (ELET3) que sacramentou a desestatização da empresa, formalmente conhecida como Centrais Elétricas Brasileiras, movimentou R$33,7 bilhões, com demanda superando duas vezes o montante de papéis disponibilizados, disseram cinco fontes diretamente envolvidas na operação. A Eletrobras confirmou parte das informações nesta sexta-feira.

A precificação, que aconteceu na noite de ontem, definiu o valor de R$42 para cada ação ordinária da empresa, superando expectativas iniciais, por conta do forte apetite de investidores pelo negócio. Esse valor representou desconto de 2,4% frente ao fechamento de R$43,04 do papel na quinta-feira.

A privatização da Eletrobras, a maior no país desde a venda da Telebrás em 1998, é vista como uma entrega importante da área econômica do governo do presidente Jair Bolsonaro, sinalizando o compromisso com a agenda de desestatizações a quatro meses da eleição presidencial mais polarizada em duas décadas.

“Duvidaram que seria possível privatizar a Eletrobras. Pois então, fizemos”, disse o secretário especial de Desestatização do Ministério da Economia, Diogo Mac Cord.

Com o sucesso da privatização, a maior realizada no Brasil em 25 anos, a União deixará de ser controladora, reduzindo sua fatia na Eletrobras para algo perto de 45%. A Eletrobras ainda não divulgou o quadro de participantes ou sua nova composição acionária.

Embaladas pelas perspectivas de privatização, a ação ordinária da Eletrobras lidera retornos em 2022 entre todas as empresas do setor de energia elétrica com capital aberto na América Latina, com valorização de 49,6% de janeiro até ontem, segundo dados da TC Economatica.

A ação ordinária da Eletrobras caía 4,11% na B3 por volta das 14h05, cotada a R$41,27.

Contudo, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que supera Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto para o pleito de outubro, declarou-se contra a operação e prometeu revertê-la caso seja eleito.

A privatização ocorreu por meio de uma oferta de 627,7 milhões de ações novas e de 69,8 milhões de ações existentes, que podia ser ampliada em 15% por meio do chamado lote suplementar – correspondente a 104,6 milhões de ações. De acordo com as fontes ouvidas pelo Scoop by Mover, a demanda por parte dos investidores institucionais e pessoas físicas atingiu mais de R$68 bilhões.

A elétrica vai embolsar cerca de R$26,4 bilhões com a emissão dos novos papéis, enquanto o braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social levantará quase R$3 bilhões com a venda de 69,8 milhões de ações de sua propriedade, dentro do âmbito da oferta.

Destravar valor

A Eletrobras pretende utilizar a totalidade dos recursos da oferta para pagar à União um bônus de outorga pela renovação de contratos de concessão de 22 usinas hidrelétricas antigas.

Uma Eletrobras desestatizada deve ganhar maior agilidade nos seus processos decisórios, disciplina na aplicação dos recursos para investimentos e incentivos para se listar no segmento Novo Mercado da B3.

Tudo isso, de acordo com analistas e gestores consultados pela Mover e o Scoop by Mover, seria chave para destravar e até criar mais valor na empresa.

“Depois da privatização de empresas símbolos no país, como Vale, Embratel, CSN e Usiminas, a capitalização da Eletrobras gera enorme expectativa em vários atores”, disse o sócio e chefe de análise política da Arko Advice, maior consultoria de risco político do Brasil, Cristiano Noronha.

Segundo ele, investidores esperam que a empresa “fortaleça sua capacidade de investimentos; trabalhadores, por meio do FGTS, esperam ampliar seus ganhos com a operação; consumidores têm enorme expectativa na melhora dos serviços e impacto nos preços”.

O sucesso da privatização da Eletrobras pode definir o destino de outras estatais, como a Petrobras, disse Noronha. Em semanas recentes, planos de vender o controle da maior petroleira listada da América Latina ganharam ímpeto.

Contra a maré

A demanda de investidores para participação na desestatização ficou perto de R$70 bilhões, mais que duas vezes o mínimo necessário para assegurar a transação, segundo fontes ouvidas pela Mover e o Scoop.

A procura veio na contramão da tendência de mercado recente no Brasil, onde as ofertas de ações secaram desde julho passado. As altas de juros nos Estados Unidos, a ressurgência da Covid-19 na China e a guerra na Ucrânia têm diminuído o interesse de investidores por ofertas de ações mundo afora.

A da Eletrobras foi a segunda maior oferta de ações vista no país, atrás apenas de uma emissão histórica da Petrobras, em 2010, que alcançou R$120 bilhões e visava financiar a exploração do pré-sal.

Ainda houve demanda para a venda de um lote suplementar equivalente a 15% das ações da oferta inicial, o que corresponde a 104,6 milhões de papéis.

As 627,7 milhões de ações ordinárias emitidas para permitir a privatização da Eletrobras começarão a ser negociadas na B3 em 13 de junho.

A operação será liquidada no dia seguinte.

Âncoras insatisfeitos

Os bancos coordenadores da oferta são liderados pelo BTG Pactual, seguido do Bank of America, Goldman Sachs, Itaú BBA, XP, Bradesco BBI, Caixa, Citigroup, Credit Suisse, JPMorgan, Morgan Stanley e Safra. Nenhum deles confirmou as informações.

Mas alguns dos chamados âncoras, potenciais investidores dispostos a se posicionar pesadamente na oferta e que estiveram antes entre os mais animados com a transação, acabaram insatisfeitos com o preço da ação, disseram duas das fontes.

Após considerá-lo alto, alguns dos potenciais âncoras retiraram ou reduziram ordens na reta final do processo, relataram.

O GIC, do fundo soberano de Cingapura, entrou na oferta apenas com um braço de investimento em ações, e não com seu braço de infraestrutura, que pretendia ser um dos principais nomes da ancoragem. O canadense CPPIB também acabou não entrando ao final devido ao preço, disseram as fontes.

“Os âncoras ficaram com faixas próximas de R$1 bilhão. Maior parte foram gestoras locais”, disse uma das fontes, citando SPX Capital, Truxt Capital e Itaú Asset.

Procuradas, as gestoras citadas não responderam a pedidos de comentário. A Eletrobras não está autorizada por ora a falar sobre a operação.

Gigante

Responsável por metade da rede de transmissão de energia do Brasil e um terço da capacidade de geração, a Eletrobras chegou a ser alvo de planos de privatização ainda nos anos 1990, durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que conseguiu vender apenas uma subsidiária da empresa, a Gerasul, em 1998.

Mais recentemente, a proposta de desestatização foi retomada, na gestão Michel Temer, em 2017, mas sofreu para avançar devido à falta de apoio do Congresso. Desde fevereiro do ano passado, Bolsonaro levou adiante a ideia de venda do controle da companhia, tradicionalmente vista como antro de indicações políticas.

Para convencer Câmara dos Deputados e Senado a aprovarem a medida, no entanto, o governo precisou aceitar mudanças no projeto de desestatização que geraram diversas críticas de especialistas.

Uma das contrapartidas à operação foi a obrigação de contratação pelo governo nos próximos anos de 8 gigawatts em usinas termelétricas a gás em diversas regiões do país, acordo que garantiu apoio de importantes caciques do Centrão à proposta.

Conta de luz

Para técnicos do setor de energia, no entanto, essas térmicas não eram necessárias e aumentarão custos para os consumidores no futuro.

Por outro lado, a Eletrobras também precisará direcionar recursos anualmente para aliviar encargos cobrados na conta de luz dos consumidores.

Em 2022, serão cerca de R$5 bilhões, o que faz com que a privatização tenha potencial de reduzir em cerca de 2,4% os reajustes tarifários neste ano, segundo o Ministério de Minas e Energia.

Para privatizar a elétrica, o governo também precisou criar uma nova estatal, a Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional, a ENBPar, que nasceu com 94 servidores.

Essa companhia fará a gestão da hidrelétrica de Itaipu e das usinas nucleares de Angra, que por questões legais não podem ser desestatizadas.

Lula

A privatização da Eletrobras encontrou forte resistência de sindicatos de trabalhadores e partidos de oposição a Bolsonaro, que inclusive moveram diversas ações judiciais que ainda tentam paralisar o processo.

Lula, por exemplo, disse que a venda do controle da companhia deve levar a uma alta na conta de luz. Ele também chegou a dizer que os novos donos da Eletrobras poderão “tomar a água dos nossos rios”.

O argumento sobre um eventual domínio das águas, no entanto, é rechaçado por especialistas, uma vez que a operação de usinas hidrelétricas é coordenada por um órgão técnico, o Operador Nacional do Sistema, e pela reguladora Agência Nacional de Águas.

A criação da Eletrobras foi proposta em 1954 pelo então presidente Getulio Vargas. O projeto enfrentou oposição política, e a companhia acabou oficialmente constituída só em 1962, tendo depois participado ativamente da expansão do sistema elétrica do Brasil.

Em 2019, ao participar de evento no Rio de Janeiro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, contou que ainda tentava convencer o governo a privatizar a Eletrobras e outras estatais, admitindo que militares como o presidente Bolsonaro têm um carinho especial por essa empresas.

“Eles criaram elas como filhos desde lá atrás. Só que eu estou dizendo: olha só, seus filhos fugiram e estão drogados”, brincou ele na ocasião, defendendo argumento de que essas companhias depois se envolveram em casos de corrupção e ineficiência.

Texto: Luciano Costa, Bruna Narcizo e Machado da Costa
Colaboração: Maria Luiza Dourado, Gustavo Boldrini, Leonardo Goy, Bruna Chieco e Renato Carvalho
Edição: Guillermo Parra-Bernal e Gabriela Guedes
Imagem: Vinicius Martins / Mover
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