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O preço de uma eleição polarizada está por vir: Coluna

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O preço de uma eleição polarizada está por vir: Coluna

Daqui a 100 dias, o Brasil passará pela eleição mais polarizada em duas décadas; mas, por ora, não vimos o mercado precificando isso

O preço de uma eleição polarizada está por vir: Coluna
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Atualizado há cerca de 2 meses

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São Paulo, 24 de junho – Ações, câmbio e juros ainda não refletiram, nem de longe, os riscos e as oportunidades que oferecem a eleição presidencial de outubro no Brasil. E não se iluda: desta vez, o impacto nos ativos pode demorar a fazer preço. Daqui a 100 dias, o Brasil passará pela eleição presidencial mais polarizada em duas décadas.

Curiosamente, no pleito de 2002 e no deste ano, encontramos vários elementos em comum: a liderança do petista Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião; a economia cambaleante e a inflação alta; a sensação de decepção com o governo atual; e uma crise internacional.

Em abril, argumentei na minha coluna, intitulada “Vai haver oportunidades na bolsa, seja com Lula ou Bolsonaro”, que a eleição abriria oportunidades para o investidor mais racional. No texto, pontuei que as ações de empresas relacionadas ao consumo das classes mais baixas poderiam ser beneficiadas com o favoritismo de Lula nas pesquisas. Também defendi que estatais e empresas de infraestrutura se beneficiariam se Bolsonaro eventualmente vencesse.

Em dias do calendário eleitoral que coincidissem com volatilidade e volumes atípicos estaríamos, finalmente, diante de um mercado precificando de verdade o vaivém das eleições.

Por ora não vimos nada disso. Mas, em algum momento, vamos ver.

Bolsa, dólar e DIs devem responder não somente às incertezas da campanha, onde serão trocados ataques e acusações, mas também aos diferentes programas de governo dos candidatos e ao noticiário tóxico, que deve focar mais no confronto do que nas propostas. O cenário que se constrói, se não houver imprevistos ou surpresas, é de um segundo turno entre Lula e o presidente Bolsonaro.

É comum que os investidores busquem antecipar os eventos para melhor se adequar aos riscos futuros e enxergar as melhores oportunidades. Mas, sejamos sensatos: diante de tantas incertezas no cenário global, como a guerra na Ucrânia e o ciclo de aperto de juros nos Estados Unidos, a eleição pode ser um desses eventos que o mercado pode avaliar conforme passam os dias e as manchetes piscam.

Sim, você não leu errado: Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, é um daqueles que acham que as atenções aos riscos estão sendo postergadas para um momento mais próximo do pleito eleitoral.

Será? Vieira & Cia têm um ponto. Comparativamente, os ativos brasileiros estão se comportando bem, muito por conta dos preços elevados das commodities. No ano, o real apresenta o melhor desempenho entre as moedas emergentes, se valorizando cerca de 9% em relação ao dólar americano.

Entre os fundos de índice negociados na bolsa americana de seis países emergentes – Colômbia, México, Turquia, China, Brasil e África do Sul – apenas um mostra desempenho positivo no ano. Não sabe qual? O EWZ, que representa uma cesta de ações brasileiras.

Neste momento, em 2002, com Lula liderando nas pesquisas, o país precisando de ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional e a inflação mensal anualizada chegando a 40%, o real era a pior moeda emergente do mundo. No primeiro semestre daquele ano, o Ibovespa havia derretido 18% e os juros da dívida pública tinham quase dobrado.

No entanto, há outros que acreditam que os riscos eleitorais já estão contidos nos preços — e, talvez, até de forma exagerada. O Ibovespa opera abaixo dos 100 mil pontos, perdendo cerca de 5% no ano. O dólar opera perto dos R$5,20 e os juros de títulos pré-fixados com vencimento em dez anos estão perto do maior patamar em seis anos — quando a então sucessora de Lula na Presidência da República, Dilma Rousseff, teve seu mandato impugnado pelo Congresso.

Para Gabriel Rech, contribuidor macro do TC, ambos os candidatos, Lula e Bolsonaro, estão neste momento fazendo discursos mais acalorados, e direcionados às suas bases firmes de apoio. No decorrer das campanhas, ele espera que esses discursos se tornem menos virulentos, para se aproximar dos eleitores de centro, dos empresários e dos investidores estrangeiros.

Nesse ponto eu tendo a concordar com Rech, mantendo um otimismo cauteloso — muito mais pelo patamar de múltiplos deprimidos do mercado do que pela confiança de que qualquer dos candidatos traga tranquilidade e respostas concretas às ansiedades nacionais.

Se acontecer essa guinada ao centro, especialmente com Lula se aproximando do empresariado e de participantes do mercado, abrem-se oportunidades na bolsa. Afinal, para nenhum dos candidatos interessa um dólar na lua ou juros sufocantes. Parece inviável, por exemplo, que Lula dê fim ao Teto de Gastos sem construir um novo arcabouço fiscal que convença o mercado de que a União cumprirá seus compromissos.

Agora, vamos diferenciar os riscos do processo eleitoral dos riscos relativos ao resultado das eleições. Ao longo da campanha, o governo vai tentar usar o Orçamento para ganhar pontos nas pesquisas com medidas populistas. Este é um risco do processo eleitoral. Já as mudanças na legislação trabalhista previstas no plano de governo de Lula são um risco relativo ao resultado das eleições.

Se a bolsa vai para cima ou para baixo, vai depender mais de fatores externos do que da eleição por algum tempo. Mas uma coisa é clara: a volatilidade vai imperar nos ativos domésticos até chegarmos ao primeiro turno.

DISCLAIMER: Felipe Corleta é colunista e editor da Mover. As opiniões dele não necessariamente refletem a posição da Mover

Imagem: Vinicius Martins / Mover
Comentários: [email protected]

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