0

Mensagem aos BCs: ‘aceita uma recessão, que dói menos’: Coluna

colunas

Mensagem aos BCs: ‘aceita uma recessão, que dói menos’: Coluna

O cenário atual é de recessão, mas uma estagflação - recessão acompanhada de alta persistente nos preços - dependerá dos BCs

Mensagem aos BCs: ‘aceita uma recessão, que dói menos’: Coluna
corleta

Atualizado há cerca de 1 mês

Ícone de compartilhamento

São Paulo, 26 de maio – Passam os dias e uma recessão global parece inevitável, menos para os banqueiros centrais.

Essa escolha pode sair muito cara para os bancos centrais e sua credibilidade. Ao que parece, os BCs precisarão subir mais os juros, mesmo avistando quedas no PIB. Quando estas se concretizarem, todo mundo vai pedir para afrouxar a política monetária – mas essa saída será inócua.

Há meses que a economia global está perdendo a capacidade de crescer de forma sustentável. Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em meados de fevereiro, levando a uma interrupção brutal do comércio internacional com os russos, o precedente de um conflito que envolvesse sanções e boicotes a um rival do Ocidente levou todo mundo a se perguntar: “E se fosse a China invadindo Taiwan?”

A pergunta é pertinente, até porque o impacto econômico dessa situação seria sensivelmente mais profundo: a China representa mais de um quarto das cadeias globais de fornecimento; a Rússia apenas 2% ou 3%. Certamente acende um alerta para todos que a Apple, por exemplo, não queira mais depender unicamente da China para a fabricação de seus produtos. A geopolítica tóxica se tornou o nome do jogo para a economia mundial.

O mundo quer mais segurança e isso levará a mais desglobalização, cujo custo será o de reduzir o potencial de crescimento do PIB mundial e aumentar os custos de produção.

Um ex-diretor do Banco Central me disse, em uma conversa recente, que a busca por diversificação das cadeias produtivas em prol de mais segurança na produção traz inflação no primeiro momento, e depois desaceleração da atividade. “Se o problema é a desglobalização, a solução seria ‘reglobalizar’, ou aceitar que a capacidade de crescimento da economia vai cair”, disse.

Isso me leva de volta aos BCs.

Ora, a política monetária não é capaz de “reglobalizar”, mas precisa agir para conter a inflação. Meu palpite é que o PIB dos próximos anos vai afundar e a inflação só cairá junto se os BCs fizerem o seu trabalho de controlá-la. Outro ex-diretor do BC inclusive me disse que, “quando cai o PIB potencial, sobe o patamar neutro de juros”.

Um deles lembrou que a inflação é “sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário”. O cenário atual é de recessão, mas uma estagflação – recessão acompanhada de alta persistente nos preços – dependerá dos BCs fazerem um trabalho porco controlando a inflação.

Resta saber se sobra coragem nos BCs para evitar o pior. Por ora, parece que sim: o Federal Reserve já sinalizou que não baixará a guarda até ver uma queda consistente na trajetória de inflação. No entanto, quando as pressões políticas de uma recessão baterem à porta do Fed, o que vai acontecer?

As chances de uma recuperação rápida do choque de juros serão proporcionais à capacidade do Fed, e dos BCs em geral, de aceitar a realidade e tolerar a dor de seguir controlando a inflação.

Infelizmente, não parece que haja nada no horizonte que possa reverter essa realidade – nem milagres nem soluções mágicas. Aceitem, BCs, que dói menos.

DISCLAIMER: Felipe Corleta é colunista e editor da Mover. As opiniões dele não necessariamente refletem a posição da Mover

Imagem: Vinicius Martins / Mover

relatorios
image

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.