Como o ESG afeta o valuation, risco e a performance da empresa

Como o ESG afeta o valuation, risco e a performance da empresa

lucca

25 MAI

8 MIN

Como o ESG afeta o valuation, risco e a performance da empresa

Há não muito tempo, o investimento “responsável” em companhias ESG ganhou bastante notoriedade. Com a popularização, criou-se, para alguns, uma certa sobrevalorização de empresas com alto nível de responsabilidade ambiental, social e ambiental. No artigo de hoje, vamos entender como o selo ESG afeta o valuation de uma ação, seu nível de risco e sua performance.

O que é ESG?

Nos últimos anos, o termo ESG ganhou bastante notoriedade no mercado financeiro, principalmente pela relação entre empresas com forte ligação social, ambiental e governança, e a performance de suas respectivas ações.

O ESG é uma sigla em inglês que se refere a “Environmental, Social and Corporate Governance”. Em português, o termo significa questões Ambientais, Sociais e de Governança (ASG).

Ambiental: O critério se refere às ações da companhia que impactam o meio ambiente: o uso de energia, o desperdício de material, a poluição gerada, a conservação de recursos naturais, a emissão de gases poluentes entre outros.

Social: O critério social está relacionado à responsabilidade social da empresa e aos seus impactos em prol da sociedade. A companhia dá boas condições de segurança e trabalho para os funcionários? A companhia garante a qualidade de vida de comunidades próximas às plantas de produção?

Governança Corporativa: Em relação a governança, a companhia deve usar métodos transparentes e eficientes para permitir que seus acionistas possam participar de decisões importantes sobre o futuro da empresa. Além disso, deve evitar conflitos de interesse entre os membros do conselho e a diretoria.

No geral, companhias que possuem boas práticas de ESG, possuem uma boa organização e direção, sendo menos vulneráveis a riscos de governança e a problemas regulatórios.

ESG e Valor

Se perguntássemos para um investidor se ele gostaria que todas as companhias tivessem um melhor nível de governança corporativa, é provável que ele diria que sim. Afinal, quem vai investir em uma empresa sem um bom comando, não é?!

O problema é que a sigla ESG é, digamos, estigmatizada por conta das duas primeiras letras. O E e o S.

Muitos confundem princípios de responsabilidade social e ambiental com “lacração” e gostam de ironizar e diminuir companhias que adotam tais práticas.

Sem entrar no mérito se o conceito é legítimo ou não, será que investir em empresas com um selo de boa governança e um bom nível de responsabilidade socioambiental não é mais vantajoso (ou menos arriscado) do que investir em companhias sem esse mesmo selo?

Entenda mais sobre essa narrativa no vídeo abaixo do professor Felipe Pontes:

Estudos de El Ghoul et al. (2011) e Gregory, Tharyan e Whittaker (2014) utilizaram um modelo de fluxo de caixa descontado para entender a influência do perfil ESG de uma empresa no valuation de suas ações.

Verificou-se como as práticas ESG afeta o nível de risco, os fluxos de caixa e o custo de capital de companhias. O primeiro passo foi entender como o ESG se relaciona com os riscos idiossincrático e sistemático.

ESG e o risco idiossincrático

O risco idiossincrático é o risco único ou específico de um ativo financeiro. É por definição o risco de um ativo que independe do movimento do mercado.

Então, foi analisado o impacto das práticas ESG no perfil de risco e na performance de mais de 1600 companhias.

Observou-se que companhias com um perfil forte ESG têm maior controle de riscos, executando boas práticas de governança e compliance. Um bom controle de riscos reduz a probabilidade de acontecer acidentes na cadeia de produção. Por sua vez, menos acidentes reduzem o risco de cauda da companhia. Com menores riscos de cauda, empresas com boas práticas ESG tendem a ser mais “defensivas” que as outras.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

ESG e o risco sistemático

Já o risco sistemático é o risco que afeta a economia de uma forma geral. Por exemplo, um colapso no sistema financeiro.

Segundo os autores Eccles, Ioannou e Serafeim (2014); El Ghoul et al. (2011); Gregory, Tharyan, e Whittaker (2014), companhias com um forte perfil ESG são menos vulneráveis a choques sistemáticos de mercado e por isso possuem um risco sistemático menor.

Segundo Guido Giese, Linda-Eling Lee, Dimitris Melas, Zoltán Nagy e Laura Nishikawa (2019), isso reflete no valuation de companhias ESG através do seguinte processo:

  1. Companhias com um forte perfil ESG possuem um risco sistemático menor;
  2. Utilizando o conceito de beta presente no modelo CAPM, chega-se à conclusão que companhias com um risco sistemático menor possuem um valor menor para o beta, o que se traduz em um menor custo de capital para a companhia;
  3. Um menor custo de capital leva a diminuição do denominador em um modelo de DCF, assim, companhias com um custo de capital menor tendem a possuir um maior valuation.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

ESG e a Lucratividade

Ademais, Gregory, Tharyan, and Whittaker (2014) verificaram que companhias com um forte perfil ESG são mais competitivas, têm um maior nível de lucratividade e pagam mais dividendos (presentes do quantil Q5).

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

O fato ocorre basicamente por 3 fatores:

  1. Companhias com um perfil ESG possuem vantagens competitivas em relação aos pares. Além disso, possuem uma capacidade maior de planejamento de longo-prazo e planos de incentivo para os que fazem parte da companhia.
  2. Essas mesmas companhias usam suas vantagens competitivas para gerar fluxo de caixa, o que culmina em um nível maior de lucratividade.
  3. O lucro se transforma em dividendos.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

ESG e o custo de capital

O custo de capital de um ativo pode ser obtido através do modelo de CAPM. Nele, o custo de capital é uma medida que depende do beta.

Assim, um custo de capital maior coincide com maiores valores de beta.

Os estudos de Guido Giese, Linda-Eling Lee, Dimitris Melas, Zoltán Nagy e Laura Nishikawa (2019) verificaram que companhias com um rating alto de ESG (Q5 na imagem abaixo) têm níveis baixos de beta e, assim, em um contexto de CAPM, menores custos de capital.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

Como foi dito anteriormente, isso se reflete no valuation dessas companhias. Menores custos de capital geram maiores valuations.

Os mesmos autores verificaram que companhias altos ratings ESG (Q5) coincidem com um maior nível de valuation tanto em termos de book-to-price quanto em termos de earnings-to-price.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

Evidências

Apesar de ter sido apresentado um mecanismo lógico pelo qual as companhias com um maior perfil ESG tendem a ser menos arriscadas, poderíamos estar tratando de uma correlação positiva.

Afinal, seria possível que só boas companhias aderissem a práticas ESG e, assim, não seria exatamente o rating ou selo que causasse uma diminuição no nível de risco destas.

Por conta disso, Guido Giese, Linda-Eling Lee, Dimitris Melas, Zoltán Nagy e Laura Nishikawa (2019) testaram empiricamente o que acontece com as principais variáveis citadas anteriormente, se uma companhia toma um downgrade ou upgrade em seu rating ESG.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

O risco sistemático de fato diminuiu, companhias com um upgrade no seu rating ESG demonstraram uma melhora no seu perfil de risco quando comparadas a empresas que tiveram downgrade ou nenhuma mudança.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

Em linha, o custo de capital de empresas com um upgrade em seu rating ESG também diminuiu, diminuindo o beta histórico.

Fonte: Foundations of ESG Investing: How ESG Affects Equity Valuation, Risk, and Performance

O maior valuation de companhias com rating ESG elevado também se verificou através do ratio Earnings-to-Price, companhias que obtiveram um upgrade no seu rating acabaram por ficar um um earning-to-price ratio menor, o que indica um aumento no valuation.

Conclusão

Portanto, ESG é um tema polêmico no mercado, ainda mais por ter uma certa antipatia de alguns por favorecer a pauta ambiental.

O artigo aqui apresentado não faz nenhum tipo de afirmação sobre se investir em uma companhia ESG é um bom ou mau investimento, apenas demonstra como um rating do tipo afeta as principais métricas de valuation.

Ademais, conforme as evidências encontradas nos estudos citados, vimos que o ESG afeta valuation e a performance das companhias, tanto pelo pelo perfil de risco idiossincrático (maiores fluxos de caixa e menor exposição a riscos de caudal) quanto pelo perfil de risco sistemático (menor custo de capital).

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Referências

Giese, G., Lee, L. E., Melas, D., Nagy, Z., & Nishikawa, L. (2019). Foundations of ESG investing: How ESG affects equity valuation, risk, and performance. The Journal of Portfolio Management, 45(5), 69-83.

El Ghoul, S., Guedhami, O., Kwok, C., and Mishra, R. 2011. “Does Corporate Social Responsibility Affect the Cost of Capital?” Journal of Banking and Finance 35 (9): 2388–2406.

Gregory, A., Tharyan, R., and Whittaker, J. 2014. “Corporate Social Responsibility and Firm Value: Disaggregating the Effects on Cash Flow, Risk and Growth.” Journal of Business Ethics 124 (4): 633–657.

Eccles, R., Ioannou, I., and Serafeim, G. 2014. “The Impact of Corporate Sustainability on Organizational Processes and Performance.” Management Science 60 (11): 2835–2857.

Estudante de Economia na UFPE

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