Previsão do tempo: bolsa caindo? Como o clima pode influenciar nos seus investimentos

Previsão do tempo: bolsa caindo? Como o clima pode influenciar nos seus investimentos

iris-sousa

19 MAI

10 MIN

Previsão do tempo: bolsa caindo? Como o clima pode influenciar nos seus investimentos

Nesta semana, uma forte onda de frio começou a atingir grande parte do Brasil. De acordo com a previsão do tempo, o frio atípico deve se prolongar nos próximos dias, com algumas capitais registrando temperaturas abaixo de 10ºC. Com isso, o clima acabou sendo tratado de forma bem humorada e se popularizou na internet, entrando para os assuntos mais comentados no Twitter com a trend Alasca.

clima no twitterprevisão do tempo de clima frio
Fonte: Reprodução trend Alasca (Twitter)

Apesar das brincadeiras, esse cenário abre margem para pensarmos além da repercussão quando o assunto é investimentos. Será que essas mudanças climáticas, de alguma forma, impactam o mercado de ações?

Mesmo parecendo que não possuem nenhuma relação, alguns pesquisadores se debruçam em descobrir os efeitos climáticos sobre os mercados, e ainda, se existe algum padrão evidente.

Pensando nisso, neste artigo vamos apresentar uma discussão sobre esses possíveis efeitos. Nossa discussão se divide nos seguintes tópicos:

  • Efeito clima e o sentimento do investidor
  • Efeito clima sobre o retorno das ações
  • Evidências no mercado Brasileiro
  • Como o investidor se beneficia disso?
  • Conclusão

Efeito clima e o sentimento do investidor

Você deve estar se perguntando “qual a relação entre o clima e o mercado? Afinal de contas, como a geografia e as finanças poderiam se relacionar?“.

Para entendermos isso, devemos observar o mercado financeiro de forma simplista: um lugar onde negociações são realizadas por pessoas. E, por sua vez, pessoas que podem tomar decisões irracionais, enviesadas por alguns fatores internos e externos aos mercados.

E é justamente nesses fatores onde podemos fazer uma ponte entre o clima e o investidor.

Clima e humor

Algumas pessoas amam o frio e outras odeiam, e até relatam que em períodos chuvosos se sentem melancólicas.

Apesar de parecer “achismo”, a alteração do humor em decorrência do clima é um fato comprovado. O ambiente influencia o indivíduo e o clima é um desses influenciadores.

O organismo interage com o ambiente e as mudanças climáticas influenciam os hormônios responsáveis pelo nosso humor.

O principal motivo para a temperatura ambiente afetar o nosso humor se dá pela alteração do funcionamento dos neurotransmissores, ocasionado pela diminuição/aumento da exposição solar. A falta da luz solar pode também afetar hormônios e neurotransmissores que controlam o sono, o apetite e o humor (Marques, 2020).

Em períodos mais frios, por exemplo, a produção dos hormônios da serotonina, dopamina e endorfina fica mais baixa, causando a falta de ânimo e sentimento de tristeza.

Em países mais frios, a ausência de luz solar pode acarretar problemas extremos como o transtorno afetivo sazonal, um problema de saúde mental ligado à depressão.

Sentimento do Investidor

Como vimos, o clima tem seu poder de influência sobre a forma que os indivíduos se sentem em determinados momentos. Nessa perspectiva, no campo das finanças, há o estudo do sentimento do investidor.

Certamente, o nome é autoexplicativo. O sentimento do investidor é uma área de estudo que trata sobre a forma que o investidor interpreta alguns acontecimentos e incorpora isso em suas decisões de investimento.

Basicamente, podemos pensar que o investidor – diferentemente das finanças tradicionais – não é 100% racional.

Na realidade, ele está propenso a enviesar suas decisões por diferentes fatores, ou mais conhecidos “vieses comportamentais”.

Sendo assim, existem alguns estudos que verificam a forma como o investidor se sente e atua no mercado, mediante algumas alterações climáticas ou impactos climáticos de modo geral.

Esses impactos são observados, por exemplo, através de alguns movimentos anormais de retorno e liquidez (dentre outras observações), que o mercado pode apresentar em períodos com alterações climáticas.

Efeito clima sobre o retorno das ações

Aqui, vamos falar um pouco sobre a parte científica dessa relação para entendermos se há de fato evidências que mostram essa relação ou podemos considerá-las como achismo.

O primeiro pesquisador a estudar essa relação, tratado como precursor da temática, é Saunders (1993).

Em seu estudo, ele buscou verificar os efeitos da cobertura de nuvens ( quantidade de nuvens presente no céu em um determinado instante de tempo) no retorno das ações.

O pesquisador utilizou os retornos diários do Dow Jones Industrial Average entre 1927-1989 e os retornos diários dos índices de mercado de valor e igualmente ponderados ao longo de 1962-1989.

Como proxy para as condições climáticas, utilizou a “porcentagem de cobertura de nuvens do nascer ao pôr do sol” de acordo com a estação meteorológica de Nova York mais próxima de Wall Street.

Alguns achados interessantes

O pesquisador observou que os retornos das ações são mais baixos em dias de 100% de cobertura de nuvens do que em dias em que a cobertura de nuvens é de 20% ou menos.

Da mesma forma, mudanças positivas no índice são mais prováveis ​​em dias com cobertura de nuvens de 20% ou menos do que em dias com 100% de cobertura de nuvens.

Em estudo posterior, os pesquisadores Hirshleifer e Shumway (2003) descobriram que os retornos das ações são significativamente menores em dias nublados do que em dias ensolarados, dando mais suporte à hipótese levantada anteriormente.

Neste estudo, verificou-se a relação entre nebulosidade e retornos das ações para 26 países de 1982 a 1997.

A partir de testes econométricos os pesquisadores mostraram que:

  • 18 dos 26 países demonstraram uma relação entre a nebulosidade e os retornos negativos das ações;
  • Para 25 dos 26 países, a nebulosidade está associada a uma menor probabilidade de retornos positivos.

Sendo assim, ao fazer essa observação em vários locais, os pesquisadores nos dão suporte para acreditar que a luz solar (ou ausência dela em dias chuvosos) pode ter poder de influenciar o sentimento do investidor.

Ou seja, essas descobertas são consistentes com o entendimento popular de que o tempo nublado está associado a humores desanimados. E, por sua vez, num contexto de mercado financeiro, pode afetar o preço das ações.

Observando em outra lente: será que há mesmo uma relação?

Apesar dos resultados supracitados, há quem seja mais cético e acha que essas constatações são só números estatísticos que não revelam fielmente a realidade.

Dessa forma, há também pesquisadores que vão em contraponto das afirmações feitas anteriormente.

A exemplo, Jacobsen e Marquering (2007) fizeram uma pesquisa para verificar a relação do tempo com o retorno do mercado e tiveram uma visão mais crítica e resultados que demonstram uma menor relação entre os dois constructos.

Os autores relatam que a correlação entre as variáveis ​​relacionadas ao clima e os retornos das ações pode ser espúria, ou seja, não faria jus à realidade. Dessa forma, a conclusão de que o clima afeta os retornos das ações por meio de mudanças de humor dos investidores seria prematura.

Os autores alertam que os pesquisadores, bem como os interessados na informação, devem ser cuidadosos ao assumir que existe uma relação entre as variáveis climáticas e os retornos das ações.

Assim, de maneira mais geral, devem ser cuidadosos ao explicar os retornos do mercado de ações muito rapidamente como resultado de mudanças de humor dos investidores induzidas pelo clima.

Evidências no mercado Brasileiro

Bom, de toda forma, há evidências positivas e negativas sobre a relação.

E aqui no Brasil, também são feitas algumas observações sobre esse possível impacto. Podemos mencionar uma pesquisa recente de pesquisadores brasileiros.

Na pesquisa, Lucas et al (2019) investigaram os efeitos do impacto das chuvas nos preços das ações de empresas de alimentos listadas no Brasil.

De modo geral, os autores levantam a argumentação ao dizer que, usualmente, agricultores e investidores são afetados pelas perdas diretas ou indiretas causadas pelo excesso de chuvas.

Sendo assim, levantando a hipótese de que o mercado tende a incorporar todas as informações disponíveis (hipótese do mercado eficiente), será que esses impactos climáticos influenciam ou não os preços das ações do setor de alimentos?

Os pesquisadores mostraram que os eventos extremos de chuva tiveram um impacto significativo no retorno das ações em mais da metade dos eventos detectados.

Além disso, causou perdas médias diárias de 1,97% no dia após as chuvas extremas. Em termos de valor de mercado, isso representou uma média diária total perda de cerca de US$ 682,15 milhões.

Vale ressaltar que os pesquisadores estudaram seis empresas (Renar Maçãs; SLC Agrícola; Vanguarda Agro; Minerva; RBF Brasil e JBS), no período de 2014.

Os resultados indicaram que para cinco das seis ações analisadas, mais de 50% dos eventos extremos de chuva tiveram um impacto significativo nos retornos de suas ações.

Os autores abrem margem e sugestões, instituindo que outras variáveis ​​climáticas podem ser analisadas, bem como a análise de outros setores além do alimentício.

Como o investidor se beneficia disso?

Um fato interessante sobre essas discussões é que cada relação tem uma conjuntura geral. Ou seja, vai além dos impactos causados apenas pelo sentimento do investidor.

Podemos observar que, apesar de o sentimento do investidor poder ser influenciado, outras variáveis também são.

Por exemplo: o impacto real que um determinado efeito climático poderá causar sobre um setor ou sobre uma empresa, e, em consequência, a forma que isso será incorporado aos preços da sua respectiva ação.

O caráter subjetivo do sentimento do investidor entra nessa incorporação dos preços, podendo ser mais ou menos forte, a depender de suas interpretações sensoriais. Por decorrência, com as constatações feitas sobre a influência do clima no humor das pessoas, se estabelece, então, uma ponte que liga essas variáveis.

Como posso usar essas informações a meu favor?

Em pesquisa, Kao et al (2019), fizeram o estudo do clima e seus fatores e o retorno das ações de empresas do setor farmacêutico em Taiwan.

Os autores descobriram que o retorno das ações das empresas farmacêuticas foram impulsionados após a exposição a temperaturas extremamente baixas por um período de tempo. Atrelando, ainda, as enfermidades que o frio pode causar, impulsionando a procura por remédios e, consequentemente, o setor farmacêutico.

Além disso, mostraram que o clima frio pode ser usado como estratégia.

Eles aconselham:

“Em um pequeno país populoso com muitas empresas farmacêuticas orientadas para o mercado doméstico, quando uma temperatura extremamente baixa está prestes a prevalecer em todo o país e espera-se o início de um mercado de ações em alta, investidores devem prestar atenção às notícias médicas e comprar ações farmacêuticas. Essas ações devem ser mantidas por 3 a 4 dias após o término de uma corrente fria. Devido a baixa nas ações, essa estratégia pode ajudar os investidores a obter mais lucros.”

Conclusão

Por fim, apesar de ainda não haver um consenso sobre os efeitos climáticos no retorno das ações do mercado, existem evidências de seu impacto.

Sendo assim, a ideia é que os investidores possam se cercar de informações aparentemente triviais e consigam transformá-las em estratégia.

Isso porque, quando se trata de investimentos (principalmente em um cenário volátil), ser perspicaz é quase um ato de sobrevivência no mercado.

Baixe nosso app grátis! No TC você acompanha as principais notícias e cotações do mercado em tempo real, além de ter acesso a canais exclusivos para interagir com os melhores profissionais.

Além disso, a gente também está no Instagram, YouTube e no TikTok. Acompanhe!

Referências

HIRSHLEIFER, D., & SHUMWAY, T. Good Day Sunshine: Stock Returns and the Weather. The Journal of Finance, v, 58, n. 3, p. 1009–1032. 2003. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/3094570?seq=1. Acesso em 19 de maio de 2022.

JACOBSEN, B., & MARQUERING, W. Is it the weather?. Journal of Banking & Finance, v. 32, n. 4, p. 526–540. 2008. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0378426608002136. Acesso em 19 de maio de 2022.

KAO, Y. S., SUN, H. Y., NIEH, C. C., ZHAO, K. Does microtherm boost pharmaceutical companies’ market capitalization returns?. Applied Economics, v. 50, n. 14, p. 1522–1535. 2017. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00036846.2017.1368988?journalCode=raec2. Acesso em 19 de maio de 2022.

LUCAS, E.C., MENDES-DA-SILVA, W. AND ARAUJO, G.S. Does extreme rainfall lead to heavy losses in the food industry?. Academia Revista Latinoamericana de Administración, v. 32, n. 2, p. 244-266. 2019. Disponível em: https://doi-org.ez15.periodicos.capes.gov.br/10.1108/ARLA-06-2017-0199. Acesso em 19 de maio de 2022.

MARQUES, D.L. Depressão Sazonal: como o clima pode impactar o humor?. Dr. Luan Diego. 2020. Disponível em: https://drluandiego.com.br/depressao-sazonal/. Acesso em 19 de maio de 2022.

SAUNDERS, E. M. Stock prices and Wall Street weather. American Economic Review. v. 83, n. 5, p. 1337–1345. 1993. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/2117565?seq=1. Acesso em 19 de maio de 2022.

Estagiária do TC School | Graduanda em Ciências Contábeis (UFPB)

Análise Fundamentalista

E-BOOK

Análise Fundamentalista

Neste e-book, abordaremos de forma simplificada os principais pontos que você precisa saber para entender a Análise Fundamentalista nas suas decisões de investimento.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.