Aversão ao risco: como o medo influencia suas decisões financeiras?

Aversão ao risco: como o medo influencia suas decisões financeiras?

iris-sousa-2

28 MAR

10 MIN

Aversão ao risco: como o medo influencia suas decisões financeiras?

A aversão ao risco é um viés comportamental amplamente estudado pelas Finanças Comportamentais. As explicações são pautadas sob o efeito do medo nas decisões de investimento, bem como, nas finanças pessoais.

O viés comportamental de aversão ao risco está diretamente ligado ao medo pelo fato de que os indivíduos tendem a enfatizar mais as perdas do que valorizar os ganhos, criando, assim, uma relação entre a propensão ao risco e o medo atrelado à decisão.

Diversos estudiosos, acadêmicos e pesquisadores realizaram estudos sobre a temática e a partir das constatações realizadas, podemos estar cientes da influência desse viés sob nossas decisões.

Sendo assim, no texto de hoje vamos entender um pouco mais sobre o poder desse viés no processo cognitivo de tomada de decisão. O texto se divide da seguinte forma:

  • Aversão ao risco: visão geral
  • Fatores que influenciam a aversão ao risco
  • Como esse viés impacta na vida do investidor?
  • Conclusão

Aversão ao risco: visão geral

O viés cognitivo chamado “aversão ao risco” pode ser traduzido como “o temor das pessoas frente a possibilidade de perda”. Apesar do nome parecer complexo, ele é fácil de ser compreendido.

Primeiramente, precisamos entender que o processo de tomada de decisão das pessoas é composto de forma processual por diversos estímulos ou fatores. É nesse contexto que entramos na vertente de estudo intitulada Finanças Comportamentais, que combina a psicologia ao universo das finanças para explicar a decisão das pessoas baseadas no caráter irracional.

Assim sendo, entramos nesses fatores que influenciam a tomada de decisão dos indivíduos, chamadas, nesse contexto, de viés cognitivo.

Em outras palavras, podemos entender esse viés como distorções no julgamento de uma determinada decisão. Distorção essa, declinada a acontecer por um único fator: somos seres humanos e somos propensos a tomar decisões irracionais.

Sabendo disso, adentramos no viés que influencia a tomada de decisão das pessoas a partir do medo de perder dinheiro. Ou seja: a aversão ao risco.

Onde surgiu o conhecimento desse viés?

A gama de conhecimentos advindos da psicologia e aplicadas ao contexto financeiro fornece um arcabouço teórico de possibilidades no que tange os efeitos comportamentais que os investidores estão propensos.

Mushinada (2020) afirma que os indivíduos buscam criar diversas estratégias e procedimentos lógicos para resolver problemas de acordo com a natureza do problema, tempo e ambiente da decisão.

Assim sendo, surge os primeiros indícios de finanças comportamentais, estudados por Simon (1957). O autor afirmou sobre a racionalidade limitada do investidor. Aqui, Simon faz a teoria de que as decisões são imperfeitas em decorrência da falta de informações, tempo inadequado e limitação cognitiva.

Sobretudo, é a partir da pesquisa de Daniel Kahneman e Tversky (1979) que essa vertente de estudo ganha força e dá luz sob o viés comportamental tratado no texto de hoje.

A “Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk”  (traduzida como Teoria do Prospecto: uma análise da decisão sob risco) abriu os horizontes da pesquisa sobre finanças comportamentais. A pesquisa ganhou o Nobel de Economia em 2002.

A pesquisa traz algumas afirmações interessantes. Entretanto, no que tange o viés da aversão ao risco, afirma que:

Os indivíduos são mais sensíveis a estímulos negativos do que positivos, pois possuem uma menor percepção de aumento de valor, desta forma tendem a arriscar menos.

Essa constatação em seus achados científicos deu suporte para várias pesquisas posteriores que corroboraram para a afirmativa de que os indivíduos tomam decisões muitas vezes conservadoras por temerem demasiadamente o risco sob seus recursos.

Esse viés está diretamente relacionado com decisões de investimentos, mas pode ocorrer diariamente em outras decisões, como por exemplo deixar de fazer algo muito desejado (como uma viagem, uma mudança de planos, etc.) em prol do receio ao risco (a probabilidade de dar errado ou de ter resultados inesperados).

Fatores que influenciam a aversão ao risco

Ao longo dos anos, foram desenvolvidas várias pesquisas com o propósito de identificar quais fatores podem estar relacionados com esta viés, dado que algumas pessoas podem ser mais ou menos propensas à aversão ao risco.

Nessa perspectiva, será que o gênero, a faixa etária, ou até mesmo o nível de instrução podem afetar a forma com que se relaciona com os riscos?

Essa indagação foi o centro de algumas pesquisas brasileiras e podemos elencar os resultados aqui.

Melo e Silva (2010) reportaram alguns achados a partir de uma série de respostas de homens e mulheres no que tange a aversão ao risco. Após alguns testes estatísticos, chegou a conclusão de que que o gênero não influencia o nível de aversão à perda.

Por outro lado, na tese de doutorado de Cavalcante (2020), foi constatado que aspectos biológicos, tais como hormônios, influenciam, mas não determinam, a propensão ao risco de um indivíduo. Isso ocorre porque fatores psicossociais moderam a relação entre testosterona e propensão ao risco.

Esse resultado é particularmente interessante, pois a maioria das pesquisas que versam sobre esse relacionamento, fazem menção aos homens serem mais propensos a maiores riscos em comparação com as mulheres.

No geral, as pesquisas trazem que uma explicação possível para uma menor aversão ao risco das mulheres na área de perdas no Brasil poderia, portanto, estar associada a um maior otimismo delas.

Lobel et al (2018) conseguiu demonstrar em seus achados que há uma tendência de pessoas mais velhas serem mais conservadoras. Na maioria dos modelos, as pessoas na faixa dos 32 aos 38 anos são mais avessas ao risco do que as demais, seguidas pelas pessoas na faixa dos 46 ou maior.

Com relação ao nível educacional, observa-se que pessoas com maior grau de instrução apresentam uma menor distorção das probabilidades. O resultado mais interessante é que pessoas com nível de doutorado apresentaram uma maior aversão à perda do que os outros grupos. Além disso, pessoas com menor nível de riqueza foram mais avessas ao risco, distorcem mais as probabilidades e são mais avessas à perda que as demais (Lobel et al, 2018).

A partir dessas constatações, podemos chegar a conclusão de que existem diversos fatores que podem influenciar na aversão ao risco das pessoas. Sobretudo, é importante saber que por vezes podemos estar sendo influenciados por esse viés e, consequentemente, devemos tomar decisões cientes da realidade, principalmente no que tange nossos recursos financeiros.

Como esse viés impacta na vida do investidor?

Em linhas gerais, tudo que foi falado anteriormente nos dá luz sobre possíveis impactos desse viés na vida dos investidores. Ademais, o principal deles certamente é com relação a perda de oportunidades de maiores ganhos, dado o medo atrelado ao risco.

Esse impacto pode ter lados diferentes. Por exemplo: pode ser que um investidor deixe de comprar um ativo (uma ação, FII, etc.) por receio de perder dinheiro – mesmo tendo argumentos factíveis que corrobora com a decisão de compra-. Mas também pode ser que um outro indivíduo não consiga investir além da renda fixa por medo de perder dinheiro na bolsa.

É primordial termos em mente que por sermos humanos temos a tendência a incorrer nesses medos e tomar decisões enviesadas, ou ainda, perder boas oportunidades de investimentos. E sob a ótica do cotidiano, podemos perder oportunidades melhores por esta opção nos tirar da zona de conforto e aguçar o medo pela perda. 

Sequencialmente a essas constatações, é válido ressalvar que existem alguns meios para não cair nessa armadilha comportamental. A mais factível delas é o estudo de diferentes opções e suas probabilidades reais de perda, levando em consideração o risco real, sem ser influenciado por uma predisposição enviesada.

Aplicando isso, podemos dar o exemplo pela decisão de compra de algum produto disponível em bolsa (como ações, Fundos, ETF’s, etc.). Você pode se perguntar:

  • Quais são as probabilidades de perda real do ativo?
  • Existem argumentos que fundamentam-se em análise e dados, e são capazes de demonstrar uma boa oportunidade?
  • A oportunidade está sendo analisada sobre o aspecto de objetividade e faz sentido com o que você busca ou é apenas uma especulação infundada?
  • O medo está sendo maior por carregar emocionalmente algum receio pessoal e não justifica-se a partir dos argumentos já estudados?

Com as respostas dessas indagações, será mais fácil tomar decisões conscientes, deixando de lado os possíveis vieses cognitivos que atrapalhem a decisão temporariamente.

Essas questões, apesar de serem predominantemente usuais no mercado financeiro, também são importantes de se observar no aspecto das finanças pessoais.

Diariamente, são tomadas decisões que demandam o gasto de recursos financeiros, e sob a ótica dos vieses, em especial do viés da aversão à perda, estamos propensos a temer os possíveis malefícios de nossas decisões.

Sendo assim, uma pessoa pode deixar de optar por boas compras ou boas contratações de serviços por temerem estar colocando seus recursos em opções arriscadas. Por exemplo, um indivíduo pode deixar de fazer uma compra online de um determinado item que lhe traga mais vantagens (em termos de valores em comparação a outras opções), por temer que a encomenda não chegue ou por ter receios infundados sobre ética do vendedor(a) virtual.

Por fim, é válido salientar que o viés da aversão ao risco é confirmado quando não há motivos racionais ou plausíveis para o referido medo relacionado ao risco.

Além disso, é importante mencionar ainda que algumas questões inerentes ao mercado podem influenciar ainda mais esse viés.

Ao estudar sobre bolhas especulativas no mercado brasileiro, Sousa e Lucena (2021) detectaram que o investidor está propenso a receber mais notícias negativas vinda do mercado e isso vem aumentando ao longo dos anos.

E, por sua vez, elas possuem maior força (em comparação a notícias positivas) para influenciar a tomada de decisão dos indivíduos, justamente por ocasionar um efeito de temor e incerteza nos investidores, aguçando a aversão ao risco.

Conclusão

Essas ponderações são importantes principalmente quando falamos de mercado financeiro e boas oportunidades de ganhos. Ao se deixar levar pelo viés da aversão ao risco, muitos investidores podem abrir mão de uma boa escolha dado seu medo infundado.

Entretanto, é importante ficar atento aos efeitos desse viés, pois apesar do foco relativo ao mercado financeiro, o viés é capaz de influenciar diferentes decisões em vários âmbitos de nossa vida (trabalho, relacionamentos pessoais e interpessoais).

Sendo assim, os investidores devem estar atentos às suas decisões e estudá-las a fundo com o objetivo de mitigar vieses comportamentais. Ou seja, o melhor caminho para qualquer investidor é o estudo, disciplina e coerência de suas decisões.

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Referências

Cavalcante, F.B.F. (2020). Testosterona E Propensão Ao Risco: Um Estudo Sob Uma Ótica Biopsicossocial. Programa De Pós-Graduação em Administração Doutorado em Administração (Tese) – Universidade Estadual Do Ceará. Disponível em: https://www.uece.br/ppga/wp-content/uploads/sites/49/2020/08/2020_Tese_Propens%C3%A3oRisco_VFinal_Correta_Aprovada.pdf

KAHNEMAN, D., TVERSKY, A. (1979). Prospect Theory: An Analysis of Decision Under Risk. Econometrica, [s. l.], v. 47, n. March, p. 263–292. Disponível em: https://doi.org/10.2307/1914185

Lobel, R. E., Klotzle, M. C., Silva, P. V. J. da G., & Pinto, A. C. F. (2018). Teoria do Prospecto: fatores determinantes nas preferências ao risco no Brasil. RACE – Revista De Administração, Contabilidade E Economia, 17(2), 535–566. Disponível em: https://doi.org/10.18593/race.v17i2.16107

Melo, C. L. L., Silva, C. A. T. (2010). Finanças comportamentais: um estudo da influência da faixa etária, gênero e ocupação na aversão à perda. Revista de Contabilidade e Organizações, 4(8), 3-23.

Mushinada, V. N. C. (2020). Are individual investors irrational or adaptive to market dynamics? Journal of Behavioral and Experimental Finance, 25. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jbef.2019.100243

Simon, H. A. (1955). Model of man: social and rational: mathematical essays on rational human behavior in society setting. The Quarterly Journal of Economics, The MIT Press, 1, 99- 118. 

Sousa, I.M.O., Lucena, W.G.L. (2021). Finanças Comportamentais, Anomalias de Mercado e Bolhas Especulativas: Uma Análise das Notícias. XV Congresso APNCONT. Disponível em: https://oxford-abstracts.s3.amazonaws.com/eb98dafd-f53a-42ea-85fd-92edfd6e8082.pdf

Analista de Conteúdo Jr no TC School | Graduanda em Ciências Contábeis (UFPB)

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