De olho no endividamento: quais são as causas e o que podemos fazer?

De olho no endividamento: quais são as causas e o que podemos fazer?

De olho no endividamento: quais são as causas e o que podemos fazer?

O endividamento pessoal ou familiar é um tema muito importante que reflete o resultado das questões sociais e econômicas de uma nação bem como questões de comportamento dos indivíduos.

Entendo que o endividamento pessoal ou familiar refere-se a quantidade de dívida que uma pessoa ou família possui em um determinado momento, ou seja, pela linguagem contábil, seriam os passivos – soma das contas a pagar, empréstimos, financiamentos e dívidas – das pessoas ou famílias.

Na literatura, não há uma definição clara do seu conceito, e o que existe é uma confusão conceitual e muitas pessoas confundem o termo endividamento com a inadimplência, que seria a soma das parcelas das contas a pagar, empréstimos, financiamentos e dívidas das pessoas ou famílias não pagas dentro do prazo estabelecido.

Nesse sentido, o texto de hoje traz alguns aspectos sobre o endividamento e seus desdobramentos. Nossa discussão será nos seguintes pontos:

  • Endividamento e inadimplência: breve introdução
  • O problema do superendividamento
  • Endividamento em números
  • Análise dos dados: o que a ciência fala?
  • Conclusão: o que podemos fazer?

Endividamento e inadimplência: breve introdução

Primeiramente, é importante desmistificar que estar endividado não é uma coisa tão ruim quanto inicialmente parece. Por outro lado, estar inadimplente é uma situação na qual se liga um alerta.

Nesse sentido, é valido salientar que a questão do nível ou quantidade de endividamento é relativa de pessoa para pessoa. Depende da capacidade financeira do indivíduo ou da família em quitar esta dívida e quanto a parcela da dívida representa no total da renda pessoal ou familiar.

Assim, todos temos um certo nível de endividamento, desde uma compra parcelada no cartão de crédito ou mensalidade na escola.

O grande problema está nas parcelas das dívidas consumirem parte significativa da renda total da pessoa ou da família, comprometendo, por exemplo, o recurso financeiro para sua existência. A partir daí, gera a temida inadimplência e transforma a pessoa ou a família em um superendividado.

O problema do superendividamento

Superendividado ou o famoso caloteiro, é a pessoa de bem que não tem condições de pagar as dívidas assumidas, pois precisa custear as despesas básicas da sua própria sobrevivência ou da família.

Aí temos um grande problema!

Dependendo de diversos fatores de ordem sociais, demográficos, macroeconômicos e comportamentais, quanto mais endividado for uma pessoa ou família maior será o risco de se tornar inadimplente e entrar na estatística dos superendividados.

Se muitas pessoas e famílias caírem nesta “ciranda nefasta”, teremos um preocupante problema social e econômico no Brasil. Isso porque irá gerar uma parcela da população financeiramente quebrada ou falida, e outra parcela cada vez mais pobre, que paga juros estratosféricos.

Sendo assim, esta transferência de riqueza via pagamento de juros aumentaria o hiato da má distribuição de renda no país, historicamente relatada nos textos técnicos e acadêmicos na área de economia e desenvolvimento econômico.

Endividamento em números

De forma sequencial, há uma preocupação nacional em monitorar os níveis de endividamento das pessoas e das famílias. Existem várias organizações que medem os níveis de endividamento das pessoas e famílias.

Um exemplo de investigação é a pesquisa mensal da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) que monitora e divulga o endividamento das famílias por meio da PEIC (pesquisa mensal de Endividamento e Inadimplência do consumidor).

Os últimos resultados (abril/2022) mostraram que 77,7 % das famílias estão com dívidas a vencer (cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, prestação de carro e de casa) sendo o maior nível registrado desde janeiro de 2010, início da série histórica da investigação.

Sequencialmente, em um ano, houve um crescimento de 10,2 pontos percentuais na proporção de endividados. Ainda, a pesquisa revelou ainda que 28,6% das famílias se declararam inadimplentes, sendo que destas, 10,9 % declararam não ter condições de pagar as suas dívidas. Ou seja, estão falidas.

O que pode ter causado esses números?

Tais percentuais foram acirrados pela queda da renda durante e após a pandemia de COVID-19 e pela alta inflação gerando nas famílias necessidades de crédito principalmente para recomposição da renda.

Uma parte das famílias encontra nos recursos de terceiros (cartão de crédito e empréstimos) uma saída para manter seu nível de consumo, manter o seu mínimo existencial.

Alguns dados interessantes

Fazendo-se uma comparação entre os níveis de renda, a pesquisa revelou que o percentual de endividamento é maior em famílias com renda mais baixa (78,6 % para famílias com renda mensal abaixo de dez salários mínimos e 74,5 % para famílias acima de dez salários mínimos).

Sendo assim, como estamos em um período considerado de alta taxa básica de juros, em comparação com eras passadas, justificada principalmente para tentar controlar a inflação crescente, o custo do crédito em termos de taxa de juros aumentou, tornando-se assim este crédito mais penoso para as famílias que, em geral, tiveram a renda achatada por conta da elevada inflação.

Ainda nos dados da pesquisa, foi evidenciado que a percepção individual quanto ao nível de endividamento piorou: 17,8% do total se declararam muito endividados, sendo o maior percentual da série histórica.

Além disso, 21,5% das famílias endividadas encerraram o quadrimestre (Jan-Abr/2022) com mais de 50% da renda comprometida com dívidas, o maior percentual desde janeiro de 2021.

Segundo análise da CNC, o contínuo encarecimento do crédito com preços aos consumidores ainda elevados e a fragilidade apontada no mercado de trabalho formal devem seguir afetando negativamente a dinâmica da inadimplência das famílias nos próximos meses, em que, entre as de menor renda, os dois indicadores de inadimplência apontam tendência cada vez mais positivamente inclinada.

Análise dos dados: o que a ciência fala?

Ao analisar a série temporal dos resultados da PEIC, percebe-se que o nível de endividamento das famílias brasileiras vem se incrementando ano a ano.

Diante deste contexto, várias pesquisas acadêmicas foram feitas ao longo do tempo, enfatizando principalmente a investigação dos condicionantes do endividamento pessoal ou familiar, estabelecendo fatores determinantes.

Nesse sentido, com relação aos fatores demográficos, uma parte dos estudos sugere que a idade, situação conjugal, agregado familiar e níveis de escolaridade são associados ao endividamento.

Influência da idade

Além disso, os extremos da idade (mais jovem e mais velhos) estariam ligados a maior a propensão ao endividamento por entender que os jovens a iniciarem a vida profissional se endividam mais adquirindo mais bens e tendo maiores níveis de consumo assim como as pessoas idosas que têm renda diminuída com maiores gastos e cuidados com saúde e medicamentos.

Diferentes situações conjugais

Com relação a situação conjugal, não há um consenso, alguns estudos asseveram que pessoas casadas e com maior número de dependentes teriam uma predisposição maior ao endividamento por terem que assumir maiores gastos com agregados familiares do que pessoas solteiras.

Outros estudos defendem que casados, por terem mais responsabilidades com dependentes, preocupam-se mais com controles financeiros que solteiros que são mais desgarrados e predispostos a endividar-se.

O nível de escolaridade

Já o nível de escolaridade também é apontado como fator determinante dos melhores empregos e, consequentemente, maiores rendas e esclarecimento sobre aspectos econômicos, embora a literatura desta temática não seja consensual de que maiores níveis de escolaridade estão relacionados a maior letramento financeiro pessoal ou familiar.

Influencia de variáveis sociais e econômicas

Com relação a renda individual e renda familiar alguns estudos retratam que baixos níveis de renda estão ligados a maiores níveis de endividamento, causados principalmente por fatores externos tais como inflação, queda da renda e despesas incrementais inesperadas.

Além disso, menores patamares de renda apresentariam maior vulnerabilidade à dividas. Por outro lado, alguns estudos relatam que maiores rendas estariam ligados a maior propensão de endividamento, devido a maior capacidade de pagar estas dívidas e a aspectos comportamentais tais como auto comparação social e aumento de gastos para pertencer a determinados grupos sociais.

Os estudos ainda relatam que a facilidade de acesso às diversas modalidades de credito, mesmo com o aumento do custo das taxas de juros, aliada aos apelos da mídia na divulgação da facilidade de acesso, ao estímulo e a oferta de produtos de empréstimos e financiamentos é um forte determinante da propensão ao endividamento.

Os níveis de desemprego podem ser apontados como uma variável determinante não do endividamento mas da inadimplência, uma vez que a pessoa ou família perde a capacidade de pagar os compromissos assumidos com o serviço da dívida.

O desempregado fica sem condição de se endividar, uma vez que não teria como pagar novas assunções de dívidas e teria maiores restrições de crédito.

Fatores comportamentais

Com relação aos fatores comportamentais, a literatura elenca: compras compulsivas, falta de autocontrole, materialismo, falta de controles financeiros e baixo letramento financeiro.

Sendo assim, vivemos numa sociedade de consumo onde as famílias são estimuladas a consumir compulsivamente e os níveis de crédito são crescentes para financiar este consumo.

Juntamente com isso, a falta de auto controle pode ser um fator decisivo.

Há um consenso teórico de que quanto pior for o comportamento materialista e de compra compulsiva do indivíduo, maior será a propensão a endividar-se.

Além disso, os estudos nesta temática apontam o materialismo e falta de controles financeiros como principais fatores determinantes não apenas do endividamento e da inadimplência, como também na propensão à falência da pessoa física, ou seja, do superendividamento.

Conclusão: o que podemos fazer?

Como conclusão, entendo que o tema endividamento deve abarcar a questão da inadimplência e do superendividamento.São temas muito importantes que merecem um debate mais profundo e constante na sociedade.

Entendo os determinantes como multicausais, na maioria das circunstâncias, uma conjunção dos diversos fatores sociais, demográficos, econômicos e comportamentais.

Um olhar macro

Trago algumas sugestões, advindas do meu próprio ponto de vista, que poderiam auxiliar na questão do endividamento.

Sendo assim, do ponto de vista de ações macroeconômicas, mais controle de inflação e taxa básica de juros mantendo ambiente propicio para mais geração de emprego e, consequentemente, aumentar a renda das pessoas, principalmente nas classes mais baixas.

Além disso, defendo uma regulamentação mais firme e rigorosa sobre as campanhas de oferta de crédito, além de uma diferenciação de taxas de juros mais baratas para pessoas de rendas mais baixas para evitar pagar juros abusivos. Um outro fator interessante seria ancorar a taxa de juros também à renda e não apenas ao risco da operação.

Sugestões individuais para você fugir do endividamento

Com relação aos fatores comportamentais, elenco estudo e acesso em educação, principalmente enfatizando aspectos de educação financeira de forma prática, tais como noções de economia, direitos do consumidor, matemática e cálculos financeiros.

Defendo o letramento financeiro como um componente dentro do arcabouço maior que é a educação como um todo. Acredito que ao termos pessoas mais educadas de forma ampla, haverá maior consciência, redução no comportamento consumista, mais preservação ambiental e social além de possibilidade de melhores empregos e incremento de renda.

Leia também: Educação Financeira nas escolas públicas é necessário?

Concluo que o tema endividamento pessoal ou familiar deve ser estudado e compreendido a partir da sua multidimensionalidade, o qual pode ser causado por diversos aspectos, como fatores demográficos, econômicos, fatores comportamentais e psicológicos, dentre outros.

Se você está começando, indicamos o curso básico sobre investimentos. Aprenda com quem realmente entende de investimentos. Tire dúvidas, troque ideias, experiências e construa uma grande rede de networking com investidores de todo Brasil.

A gente também está no InstagramYouTube e no TikTok. Acompanhe!

Doutor em Administração - Finanças e professor do curso de Ciências Contábeis da Unimontes MG

Aprenda tudo sobre contabilidade

E-BOOK

Aprenda tudo sobre contabilidade

Neste e-book — “Contabilidade”, trazemos informações e conceitos importantes sobre contabilidade financeira.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.

Receba todas as novidades do TC

Deixe o seu contato com a gente e saiba mais sobre nossas novidades, eventos e facilidades.